economia

Correios pedem bilhões ao governo enquanto perdem espaço para a nova logística do Brasil

Os Correios voltaram a pedir socorro. Às vésperas de mais um ano difícil, a estatal solicitou uma ajuda emergencial de cerca de R$ 6 bilhões direto do Tesouro Nacional. O motivo é conhecido: a empresa pública acumula o pior resultado financeiro entre todas as estatais do país. Em 2021 ainda havia lucro, mas desde então a situação só piorou, ano após ano.

Durante muito tempo, foi vendida a ideia de que empresas estatais são eternas. Não importa se o serviço é lento, se o atendimento deixa a desejar ou se o prejuízo cresce, elas sempre estariam ali por serem consideradas “essenciais”. Só que essa lógica começou a ruir quando o mercado mudou — e mudou rápido.

Nos últimos anos, o Brasil assistiu a uma transformação silenciosa no jeito de comprar e receber produtos. O que antes levava semanas, hoje chega em um ou dois dias. Essa mudança não veio do Estado, veio da iniciativa privada, puxada principalmente pelo crescimento do e-commerce e por empresas que decidiram assumir o controle da própria logística.

Quem comprava online lá por 2015 lembra bem como era. O prazo era longo, o rastreamento quase inexistente e a sensação de insegurança constante. Encomendas ficavam dias paradas sem explicação, muitas vezes presas em centros de distribuição que viraram piada nacional. Reclamar não resolvia. Greves eram frequentes e o consumidor acabava refém de um sistema sem opção de escolha.

Para pequenos vendedores, a situação era ainda pior. Bastava uma paralisação para o dinheiro ficar travado, a reputação cair e os clientes sumirem. Não era só atraso, era impotência. O monopólio dos Correios criou um ambiente onde melhorar não era prioridade, porque o cliente não tinha para onde correr.

Esse cenário abriu espaço para algo novo. Empresas de tecnologia entenderam que o problema não era vender, mas entregar. E quem resolveu encarar isso de frente foi o Mercado Livre. Em vez de depender dos Correios, a empresa decidiu montar sua própria estrutura logística no Brasil.

O movimento foi grande. Galpões gigantes surgiram, sistemas inteligentes passaram a organizar estoques, caminhões próprios entraram na estrada e até aviões começaram a operar com a marca da empresa. A entrega rápida deixou de ser promessa e virou padrão. Comprar e receber no dia seguinte passou a ser algo comum para milhões de brasileiros.

Na ponta final, a inovação continuou. Entregas passaram a ser feitas por motoristas independentes, pessoas comuns usando carros, motos e vans, trabalhando em horários flexíveis, inclusive à noite e aos fins de semana. Enquanto isso, os Correios continuaram presos a uma estrutura pesada, custos altos e pouca flexibilidade.

Com o tempo, o impacto ficou claro. À medida que grandes volumes de encomendas deixaram de passar pela estatal, a receita caiu, mas as despesas continuaram. Salários, pensões, prédios e agências pouco usadas seguiram pesando no caixa. O resultado foi um rombo histórico, que agora precisa ser coberto com dinheiro público.

Mais do que o prejuízo financeiro, houve uma mudança de comportamento do consumidor. O brasileiro passou a exigir rapidez, transparência e previsibilidade. Hoje, quando alguém vê “entrega em 7 dias”, já pensa duas vezes. A confiança migrou para quem entrega rápido e cumpre o prometido.

Os Correios tentam se reinventar, anunciam novos serviços e parcerias, mas enfrentam um problema maior: a imagem de lentidão ficou marcada. Enquanto isso, o mercado segue avançando, com concorrentes cada vez mais estruturados e eficientes.

O que aconteceu com os Correios não foi um acidente isolado. Foi o resultado de decisões adiadas, falta de inovação e a crença de que o monopólio protegeria a empresa para sempre. A lição é dura, mas clara: no mundo atual, não existe empresa grande demais para cair — existe apenas empresa lenta demais para acompanhar.

E enquanto a estatal pede ajuda para sobreviver, o Brasil segue recebendo suas encomendas cada vez mais rápido, provando que a logística virou peça-chave da economia moderna.

João Neto

Nascido em Ceilândia e criado no interior de Goiás, sou especialista em transporte terrestre e formado em Logística. Com ampla experiência no setor, dedico-me a aprimorar processos de transporte e logística, buscando soluções eficientes para o setor.

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