Caminhoneiros experientes estão recusando carga do Mercado Livre em 2026
Caminhoneiros experientes estão dizendo não para as propostas de carga do Mercado Livre em 2026. Nas docas de Cajamar, Guarulhos, Extrema e Araucária, a conversa na madrugada é a mesma: o valor que sobra depois de todos os descontos não fecha a conta.
O gigante do e-commerce fecha contrato com grandes operadores. Esses operadores repassam para outras transportadoras. Quando a tabela chega no agregado, o valor já passou por duas ou três mãos. Tem rota interestadual pagando quase o mesmo por quilômetro de três anos atrás, enquanto diesel, pneu e oficina subiram sem parar. Quem roda com caminhão novo e baú impecável, exigência das portarias, recebe frete apertado.
O relógio também aperta. O aplicativo marca o minuto exato de chegada. Atraso de 20 ou 30 minutos por causa de fila de balança ou obra na pista joga o caminhão para o fim da fila. Fica parado 6, 8, às vezes 10 horas. E a estadia não é paga porque o sistema registrou atraso. Quando o galpão demora horas para liberar o caminhão, a pressão volta para o motorista: tem que recuperar o tempo na estrada. Multa de radar é por conta dele. Chegar atrasado na outra ponta também é problema dele.
Avarias e diferença de volume também caem no desconto do frete. O motorista não sobe na doca para conferir as gaiolas. Recebe o baú lacrado. Se alguma caixa chega amassada ou falta volume, a conta chega no extrato da quinzena. Provar que o lacre estava intacto vira guerra de foto e mensagem.
Na estrada, o baú cheio de eletrônicos vira alvo. O plano de viagem é fechado. Qualquer desvio para um posto mais seguro ou uma parada de emergência dispara alerta e pode bloquear o combustível. O motorista fica entre o risco de assalto e o risco de suspensão no cadastro.
A rotina noturna pesa. A maioria das transferências sai entre 22h e 6h. Quem fica meses nessa escala sente o corpo cobrar. Tem quem engordou, subiu a pressão e perdeu o fim de semana em casa. Um carreteiro de Curitiba que entrou nessa linha dedicada vendeu o caminhão depois de oito meses e voltou para carga industrial. Disse que estava entregando a saúde em prestações.
Nas operações grandes o contato é com aplicativo e totem. Problema na estrada vira chamado numérico. O profissional sente que virou número. Muitos estão voltando para carga de alimento, papel, celulose e cooperativa regional, onde o frete ainda respeita o piso e o trato continua de gente para gente.
Comentários
0