Especialistas dizem que linha de crédito de R$ 6 bilhões para compra de caminhões pode pressionar contas públicas, gerar distorções no mercado e acender sinal amarelo no cenário fiscal do Brasil
Conforme reportagem publicada pelo O Globo, economistas levantaram preocupação com um novo programa do BNDES que oferece financiamento para compra de caminhões novos e seminovos, usando recursos do Tesouro Nacional para bancar parte do crédito. A medida, anunciada em dezembro de 2025, faz parte de um esforço do governo federal de apoiar a renovação da frota de transportes, mas tem gerado debate entre analistas que vêem isso como um risco fiscal importante num período delicado das contas públicas.
A linha de crédito soma cerca de R$ 10 bilhões, sendo R$ 6 bilhões oriundos do Tesouro e R$ 4 bilhões captados pelo BNDES a taxas de mercado, e foi lançada oficialmente pelo banco no final de dezembro, poucas semanas antes do fim do ano.
Entre os críticos, alguns economistas consideram que a medida chega em um momento em que o governo enfrenta dificuldades para fechar as contas públicas, com déficits e pressões sobre o orçamento, o que poderia elevar a preocupação com a sustentabilidade fiscal no curto prazo.
Um dos especialistas citados no texto, Claudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria, afirmou que, diante de recursos que já estão escassos, priorizar um programa de crédito dessa magnitude não é a melhor escolha comparado a áreas como saúde, educação e saneamento. Segundo ele, é preciso que o governo avalie onde o dinheiro público pode trazer maior benefício social antes de destinar verbas públicas a linhas de financiamento como essa.
Outro ponto levantado é a experiência passada com políticas de incentivo à renovação da frota de caminhões, que em alguns momentos anteriores contribuiu para ampliar o número de veículos sem que a demanda por frete crescesse na mesma proporção, o que pode afetar preços e a renda dos próprios caminhoneiros, sobretudo os autônomos que têm menos acesso a crédito e margens menores na negociação.
A economista Natalie Verndl, do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), destacou que as contas públicas brasileiras estão em situação fragilizada, com déficits significativos e metas fiscais sob pressão. Ela observou que, ao utilizar recursos escassos do Tesouro para financiar crédito subsidiado, o governo pode reduzir sua capacidade de financiar outras políticas essenciais e também enfraquecer sinais de ajuste fiscal para o mercado financeiro.
O programa também reserva apenas cerca de R$ 1 bilhão para transportadores autônomos e cooperativas, o que representa uma fatia relativamente pequena do total e, segundo alguns analistas, pode acabar concentrando a maior parte dos recursos nas mãos de grandes transportadoras.
Por outro lado, defensores da iniciativa argumentam que renovar a frota de caminhões pode trazer ganhos de eficiência e segurança no transporte de cargas, além de modernizar um setor essencial para a economia brasileira.
Apesar das críticas, o BNDES afirmou que está pronto para executar as políticas definidas pelo governo federal, e que medidas desse tipo podem ser parte de uma estratégia mais ampla de apoio ao setor produtivo.

