China acelera caminhões elétricos e já vende 140 mil unidades em seis meses

Enquanto Brasil, Estados Unidos e países europeus ainda discutem como ampliar o uso de caminhões elétricos, a China já colocou a eletrificação dos pesados em outro ritmo.
Segundo dados divulgados pela Reuters, aproximadamente 140 mil caminhões elétricos foram vendidos na China somente no primeiro semestre de 2026. A participação desses veículos, que era praticamente inexistente em 2021, chegou a cerca de 30% das vendas de caminhões no país em 2025, considerando o levantamento citado pela agência.
A Agência Internacional de Energia também mostra a dimensão desse avanço. Em 2025, um em cada quatro caminhões vendidos na China era elétrico. No segmento de caminhões pesados, a participação chegou a 28%, contra apenas 13% um ano antes.
A China respondeu por mais de 90% das vendas mundiais de caminhões elétricos em 2025, segundo a IEA.
Governo quer chegar a 40% dos pesados novos
E a intenção chinesa é acelerar ainda mais.
O plano anunciado para 2030 estabelece que 40% dos novos caminhões pesados vendidos no país sejam elétricos. A meta também prevê que aproximadamente 20% de toda a frota pesada chinesa seja eletrificada, chegando a cerca de 1,6 milhão de veículos.
Em determinadas rotas curtas próximas a Pequim, o objetivo chega a 80% de caminhões elétricos.
Para sustentar essa quantidade de veículos, o país planeja instalar aproximadamente 3 mil estações de recarga e troca de baterias para caminhões até 2030. A estrutura deve se concentrar principalmente em corredores de carga, portos, minas, indústrias e grandes centros logísticos.
É justamente nesses trajetos previsíveis que os elétricos chineses estão encontrando terreno fértil.
Muitos trabalham entre minas, siderúrgicas, portos e centros industriais, realizando percursos repetitivos em que a empresa sabe exatamente onde o caminhão sairá, onde descarregará e onde poderá carregar ou trocar sua bateria. A IEA aponta que esse tipo de operação tem sido um dos principais responsáveis pela expansão atual.
Alguns caminhões já permitem trocar a bateria
A China também vem apostando em uma solução diferente daquela encontrada na maioria dos automóveis elétricos: trocar a bateria em vez de esperar pela recarga.
Em 2025, cerca de 15% dos caminhões elétricos vendidos no país eram compatíveis com sistemas de troca de baterias, segundo a IEA.
Isso é particularmente interessante para o transporte de cargas porque caminhão parado significa perda de produtividade.
Em outras operações, a recarga rápida também está avançando. Um caminhão apresentado pela fabricante chinesa Beiben em 2026 utiliza bateria para aproximadamente 200 a 250 quilômetros de autonomia e, segundo a empresa, pode ser recarregado em cerca de 22 minutos.
Ainda não é uma solução perfeita para qualquer tipo de transporte. Rotas muito longas continuam exigindo baterias maiores, mais infraestrutura e planejamento.
Mas em trajetos repetitivos, a conta começa a funcionar.
Diesel caro está ajudando os elétricos
Outro fator está acelerando essa mudança: combustível.
A Reuters informou em agosto que os preços mais elevados do diesel fortaleceram ainda mais a procura por caminhões elétricos na China e em outros países asiáticos.
O custo inicial do elétrico ainda é maior em muitos mercados, mas a operação pode gastar consideravelmente menos energia do que um caminhão a diesel.
A IEA afirma que, em determinadas aplicações na China, caminhões pesados elétricos já conseguem atingir custo total de propriedade semelhante ao diesel após cerca de cinco anos de utilização.
Essa conta inclui não apenas o preço de compra, mas energia, manutenção e demais custos durante a utilização do veículo.
Para uma empresa com caminhões rodando diariamente em rotas intensivas, essa diferença começa a pesar na decisão de compra.
Agora a China quer vender esses caminhões para o mundo
O movimento não ficará restrito ao mercado chinês.
Nos quatro meses seguintes ao início do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel em fevereiro de 2026, as exportações chinesas de caminhões elétricos pesados mais que dobraram em comparação ao mesmo período do ano anterior, chegando a 16.823 unidades. Metade foi destinada ao Sul e Sudeste da Ásia.
A Sany, apontada pela Reuters como a maior fabricante mundial de caminhões pesados elétricos, também está ampliando sua atenção para Ásia, África e América Latina.
Só em junho, a fabricante realizou uma encomenda internacional de 880 caminhões pesados, a maior venda individual desse tipo registrada pela companhia até então.
Esse avanço começa a preocupar fabricantes tradicionais.
A Reuters informou anteriormente que diferentes marcas chinesas estão preparando uma expansão no mercado europeu, onde fabricantes locais terão de competir com veículos elétricos chineses de menor custo.
E o Brasil?
A experiência chinesa mostra que o caminhão elétrico provavelmente não precisará substituir imediatamente a carreta a diesel que cruza 2 mil quilômetros para ganhar mercado.
Ele pode começar onde a operação é mais fácil de controlar: portos, mineração, centros de distribuição, fábricas e trajetos regionais repetitivos.
Foi justamente assim que a China conseguiu acelerar.
O desafio brasileiro seria construir infraestrutura de recarga para veículos pesados e fazer o custo de aquisição fechar a conta para transportadoras e caminhoneiros.
O que já está claro é que a discussão deixou de ser apenas sobre protótipos.
Na China, centenas de milhares de caminhões elétricos já estão sendo vendidos, fábricas aumentam a produção e uma rede de recarga e troca de baterias está sendo construída para acompanhar esse crescimento.
Se esse ritmo continuar, o próximo capítulo pode acontecer longe das estradas chinesas. Com fabricantes mirando exportações para outros continentes, a disputa entre diesel e eletricidade no transporte pesado começa a atravessar fronteiras.
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