Brasileiro trabalha, paga o básico e sobra pouco: dívida já atinge 82% das famílias

O salário cai na conta, mas para muita gente o dinheiro já tem destino antes mesmo de chegar. Aluguel, mercado, energia, água, transporte e parcelas ocupam uma fatia grande do orçamento. Quando tudo é pago, a sensação é de ter trabalhado o mês inteiro apenas para manter a casa funcionando.
Os números ajudam a mostrar esse aperto. Em julho de 2026, 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio. Foi o maior percentual registrado pela pesquisa. Em junho, eram 81,6%.
E não é pouca coisa comprometida. Entre as famílias endividadas, cerca de 29,5% da renda mensal, em média, está destinada ao pagamento de dívidas. Em 19% dos casos, mais da metade dos rendimentos do mês já está comprometida com esses pagamentos.
No supermercado, houve algum alívio recente, mas os valores continuam chamando atenção. A pesquisa do DIEESE e da Conab mostrou que a cesta básica ficou mais barata em 26 das 27 capitais em julho. Mesmo depois dessa redução, São Paulo continuou com a cesta mais cara do país, custando R$ 915,01. Cuiabá apareceu logo depois, com R$ 881,27.
Para ter uma ideia do peso disso no bolso, um trabalhador de São Paulo recebendo o salário mínimo de R$ 1.621 precisou trabalhar 124 horas e 11 minutos somente para comprar os alimentos da cesta básica calculada pela pesquisa. E essa conta ainda não inclui aluguel, conta de luz, gás, transporte, remédios, internet ou qualquer gasto inesperado.
A inflação oficial também perdeu força recentemente. O IPCA avançou apenas 0,07% em julho, segundo o IBGE. Alimentação e bebidas tiveram queda de 0,67% no mês. Só que, olhando os últimos 12 meses, os preços acumulavam alta de 4,44%. Habitação subiu 0,99% apenas em julho, puxada principalmente pela energia elétrica residencial, que aumentou 3,09%.
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho apresenta números melhores. O rendimento real habitual dos trabalhadores chegou a R$ 3.726 no trimestre encerrado em maio e cresceu 4% na comparação anual.
Na vida prática, porém, renda média não significa dinheiro sobrando para todas as famílias. Quem recebe menos, sustenta filhos, paga aluguel ou já carrega parcelas no cartão sente o orçamento de outra maneira. Com 82% das famílias endividadas, uma parte grande do dinheiro que entra todos os meses já está comprometida antes de qualquer gasto fora do básico.
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