
Foto: Reprodução / PAULO LIEBERT/ESTADÃO CONTEÚDO
O Brasil deu um passo significativo em sua política energética ao aprovar, recentemente, a nova composição de combustível com maior participação de etanol anidro: a chamada gasolina E30, composta por aproximadamente 30% de etanol e 70% de gasolina. A iniciativa tem dois objetivos principais: reduzir o custo da gasolina para o consumidor final e diminuir a dependência de derivados de petróleo importados.
Segundo o governo federal, a transição para a E30 poderia reduzir em até R$ 0,11 por litro o valor da gasolina nas bombas. Além da economia, o uso maior de etanol — biocombustível renovável amplamente produzido no país — está alinhado a metas ambientais e ao fortalecimento da indústria nacional de insumos.
A nova gasolina exige que as refinarias produzam os lotes com a mistura aprovada, conforme as diretrizes definidas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Veículos flex, que já aceitam etanol e gasolina em diferentes proporções, estariam aptos a utilizar a E30 sem adaptações significativas, segundo os testes oficiais. Falta apenas observar o impacto no consumo, desempenho, autonomia e manutenção.
Apesar das promessas, já surgem indícios de que a redução de preço não está sendo percebida na magnitude esperada pelos motoristas. Um levantamento recente indicou que, embora o potencial fosse de queda de até R$ 0,20 por litro em alguns cálculos iniciais, a redução real ficou em torno de apenas R$ 0,02 por litro entre agosto e setembro de 2025.
Várias causas explicam essa discrepância: o mercado de combustíveis é altamente influenciado por fatores como câmbio, preço internacional do petróleo, tributos, margens de distribuidoras e postos, custos de logística e manutenção. Mesmo com a mistura mais barata, esses elementos podem diluir ou impedir a transferência integral da economia para o consumidor.
Do lado positivo, a adoção da E30 fortalece a soberania energética ao reduzir a necessidade de importação de gasolina. Também abre espaço para investimentos no setor de cana-de-açúcar, etanol e biocombustíveis, além de ajudar a reduzir emissões de gases de efeito estufa.
Por outro lado, especialistas levantam alertas: o etanol tem menor poder calorífico que a gasolina, o que pode implicar em maior consumo para percorrer a mesma distância. Além disso, para veículos mais antigos ou importados, podem haver impactos no desempenho, na partida a frio ou necessidade de ajustes. Os componentes automotivos, especialmente em frotas, merecem acompanhamento técnico.
A introdução da gasolina E30 marca uma mudança estratégica para o Brasil: uso maior de biocombustíveis, menor vulnerabilidade externa e promessa de alívio para o bolso do consumidor. Mas a jornada até que esse alívio seja pleno ainda está em andamento. A diferença entre o valor projetado e o valor real pago na bomba revela a complexidade do sistema de combustíveis no país. Para o motorista, a recomendação é acompanhar os efeitos no dia a dia, verificar desempenho e manter os sentidos ligados — porque, no fim das contas, a economia pode estar ali, mas cabe à sociedade e ao mercado fazer com que ela chegue de fato ao tanque.
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