Sem experiência, sem emprego: o paradoxo que trava novos caminhoneiros no Brasil

Fila de candidatos a emprego.
Empresas de transportes estão dando oportunidade apenas para motoristas com experiência

O Brasil vive um cenário contraditório no transporte rodoviário de cargas: transportadoras afirmam enfrentar déficit de caminhoneiros, mas motoristas recém-habilitados relatam enorme dificuldade para conseguir o primeiro emprego.

A principal barreira é a exigência de experiência. Muitas empresas pedem mínimo de um a dois anos comprovados na carteira, além de histórico sem acidentes e conhecimento em rotas específicas. Para quem acabou de conquistar a CNH categoria C, D ou E, a pergunta é inevitável: como adquirir experiência se ninguém oferece oportunidade?

O investimento para se tornar caminhoneiro não é baixo. Além das taxas da autoescola, exames médicos, curso do MOPP (quando necessário) e custos com renovação de documentos, o candidato pode gastar milhares de reais até estar apto a dirigir profissionalmente. Mesmo assim, ao buscar vaga, encontra portas fechadas por não ter “tempo de estrada”.

Do lado das transportadoras, a justificativa costuma ser o alto risco operacional. Caminhões e carretas têm alto valor agregado, as cargas muitas vezes são milionárias e qualquer erro pode gerar prejuízos enormes. Empresas também citam aumento de sinistros, custo de seguro elevado e exigências das seguradoras como fatores que dificultam a contratação de iniciantes.

Outro ponto é a pressão por produtividade. O transporte rodoviário trabalha com prazos apertados, logística complexa e metas rigorosas. Muitas empresas preferem contratar profissionais já “prontos”, que conheçam documentação, tacógrafo, controle de jornada e rotinas de entrega.

O resultado é um ciclo que se retroalimenta: motoristas experientes envelhecem e deixam a profissão, enquanto jovens habilitados não conseguem entrar no mercado. Isso contribui para o envelhecimento da categoria e amplia o déficit que o próprio setor reclama enfrentar.

Especialistas defendem que a saída pode estar em programas de formação interna, estágios supervisionados, parcerias com escolas de transporte e contratação assistida. Algumas empresas já adotam modelo de “segundo motorista” ou treinamento prático acompanhado, permitindo que o novato ganhe vivência real nas estradas com menor risco.

Sem esse tipo de iniciativa, o paradoxo permanece: há caminhões parados por falta de motorista, enquanto motoristas habilitados permanecem parados por falta de oportunidade.