
Foto: Reprodução / passapalavra
Em uma viagem do Sul para o Centro-Oeste, o valor bruto pode passar de R$ 15 mil, mas diesel, pedágio, pneu, manutenção e espera comem boa parte do dinheiro.
Muita gente olha para um frete de caminhão pesado e pensa que o caminhoneiro está ganhando muito dinheiro. Em uma viagem do Sul para o Centro-Oeste, por exemplo, um frete pode chegar perto de R$ 15 mil ou até passar disso, dependendo da carga, da distância, do número de eixos e da época do ano.
Mas esse valor não é lucro. Esse é o dinheiro bruto que entra. Antes de sobrar alguma coisa para o motorista, vem diesel, pedágio, alimentação, manutenção, pneu, óleo, seguro, comissão, imposto, parcelas do caminhão e ainda o risco de voltar vazio.
A própria ANTT atualizou a tabela de pisos mínimos de frete em 2026 por causa da alta do diesel S10. Segundo a agência, o preço médio usado na atualização passou para R$ 6,89 por litro em março, com reajuste médio de 4,82% na tabela de carga lotação. A regra existe justamente porque o diesel pesa muito no custo do transporte.
Para entender melhor, vamos imaginar uma viagem de caminhão pesado saindo do Paraná ou de Santa Catarina para o Mato Grosso, em uma rota de cerca de 1.500 km. É uma viagem comum para quem transporta carga agrícola, insumos, grãos, alimentos, produtos industriais ou carga geral.
Pela tabela de referência da ANTT, uma operação de carga lotação com composição pesada pode ficar na casa dos R$ 14 mil a R$ 16 mil, dependendo do tipo de carga e do número de eixos. A calculadora oficial da ANTT considera tipo de carga, distância e características do veículo para chegar ao piso mínimo do frete.
Na prática, o caminhoneiro pode ver um valor bruto de R$ 15 mil e achar que a viagem está boa. Só que a conta começa a apertar logo no primeiro abastecimento.
Na semana de 3 a 9 de maio de 2026, o diesel S10 teve preço médio de R$ 7,24 por litro no Brasil, segundo dados da ANP citados pela Agência Brasil. O mesmo levantamento mostra que o diesel é acompanhado de perto porque mexe direto no valor do frete e no custo dos produtos transportados.
Um caminhão pesado carregado pode fazer algo perto de 2 km por litro, dependendo da estrada, peso, vento, motorista, relevo e conservação do conjunto. Em uma viagem de 1.500 km, só a ida pode consumir cerca de 750 litros de diesel. Com o litro a R$ 7,24, isso dá mais ou menos R$ 5,4 mil só de combustível.
Se o caminhoneiro não consegue carga de volta, a situação piora. A volta vazia também gasta diesel, também come pneu e também desgasta o caminhão. Aí o custo total da viagem pode subir muito, mesmo que o frete pago tenha sido apenas na ida.
Além do diesel, tem pedágio. Em muitas rotas longas, o pedágio pode passar de R$ 1 mil, dependendo do caminho e da quantidade de eixos. Tem também alimentação na estrada, banho, estacionamento, pernoite, manutenção preventiva e pequenos reparos.
Pneu é outro custo que muita gente de fora não enxerga. Um conjunto de pneus de caminhão pesado custa caro e vai sendo gasto a cada quilômetro rodado. Mesmo quando não fura nada, o caminhoneiro está gastando dinheiro só de rodar.
Também entra na conta a troca de óleo, lona de freio, suspensão, embreagem, documentação, seguro, rastreador, impostos e a reserva para uma quebra inesperada. Se o caminhão ainda é financiado, a parcela também precisa sair do frete.
Vamos pegar um frete bruto de R$ 15 mil em uma viagem do Sul para o Centro-Oeste. Só o diesel da ida pode passar de R$ 5,4 mil. Com pedágio, comida, manutenção proporcional, pneus, taxas e outros gastos, o custo pode passar facilmente de R$ 10 mil.
Se o caminhoneiro consegue uma carga boa de retorno, a conta melhora. Mas se ele volta vazio ou pega um retorno muito barato, o lucro fica bem menor do que parece. Em alguns casos, depois de dias fora de casa, espera para carregar, espera para descarregar e risco na estrada, sobra pouco perto do tamanho da responsabilidade.
É por isso que muitos motoristas dizem que o frete é grande, mas o lucro é pequeno. O valor que aparece no papel não mostra a vida real da estrada.
Outro ponto que pesa é o tempo parado. O caminhoneiro pode ficar horas ou até dias esperando para carregar ou descarregar. Esse tempo nem sempre é pago do jeito justo. Enquanto espera, ele continua gastando com alimentação, perde outras viagens e fica preso no pátio.
No papel, a viagem parece simples: carregar, rodar e descarregar. Na vida real, tem fila, nota fiscal, balança, fiscalização, trânsito, manutenção, chuva, estrada ruim e prazo apertado. Tudo isso mexe no lucro.
O erro de muita gente é achar que frete bom é aquele que paga o combustível. Não é. O frete precisa pagar o diesel, o pedágio, o desgaste do caminhão, o tempo do motorista, os riscos da estrada e ainda deixar lucro.
A ANTT informa que a política de pisos mínimos considera quilômetro rodado, tipo de carga, distância e especificidades do transporte. Mesmo assim, o caminhoneiro precisa fazer sua própria conta, porque cada rota tem uma realidade diferente.
No fim, o caminhoneiro não trabalha com o valor bruto do frete. Ele trabalha com o que sobra depois da estrada cobrar a parte dela. E, muitas vezes, essa parte é grande demais.
Esta publicação foi modificada pela última vez em 12 de maio de 2026 18:53
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