Por que tantos caminhoneiros brasileiros estão deixando o país

Salários em euro, ofertas de emprego e a esperança de trabalhar em estradas mais estruturadas estão levando caminhoneiros brasileiros a procurar oportunidades na Europa. Não existe, porém, um levantamento oficial dizendo quantos profissionais da categoria já deixaram o Brasil.
A falta de motoristas abriu espaço para contratações internacionais. O relatório mais recente da União Internacional dos Transportes Rodoviários calcula cerca de 502 mil vagas de caminhoneiro sem profissionais na Europa, com transportadoras enfrentando dificuldade para manter e ampliar suas operações.
O pagamento também pesa na decisão. Segundo a rede europeia de empregos EURES, o salário médio dos caminhoneiros no continente fica 55% acima do salário mínimo dos respectivos países analisados. Em mercados como Alemanha, Espanha, França e Holanda, diárias, trabalho noturno e viagens internacionais podem aumentar o valor recebido.
Algumas transportadoras passaram a buscar profissionais diretamente no Brasil. A espanhola J Carrion, por exemplo, mantém uma página em português para caminhoneiros brasileiros enviarem CNH, comprovantes do Detran e informações sobre experiência em cargas refrigeradas e transporte internacional. O processo atual foi encerrado, mas a empresa continua formando um banco de talentos.
A possibilidade de conseguir a primeira oportunidade em uma carreta moderna também atrai quem encontra dificuldades para entrar em grandes transportadoras brasileiras. Na Europa, a falta de profissionais faz algumas empresas oferecerem treinamento e um período trabalhando como segundo motorista.
A mudança não depende apenas da CNH brasileira e da Permissão Internacional para Dirigir. Para exercer transporte comercial na União Europeia, o profissional normalmente precisa de autorização de trabalho, habilitação reconhecida e qualificação profissional marcada pelo Código 95 ou documento equivalente.
A Alemanha possui regras específicas para contratar motoristas de países fora da União Europeia. O profissional pode entrar em um processo de qualificação, converter a habilitação e obter a formação exigida, desde que tenha uma proposta de emprego e aprovação das autoridades.
O interesse também acompanha o crescimento da população brasileira fora do país. O Itamaraty estima que aproximadamente 4,9 milhões de brasileiros viviam no exterior em 2023, cerca de 400 mil a mais que no ano anterior. Portugal e Reino Unido estão entre os países com as maiores comunidades brasileiras.
O salário maior não garante dinheiro sobrando. Aluguel, seguro-saúde, impostos, alimentação, documentação e transferência de dinheiro para o Brasil podem consumir boa parte da renda. Quem viaja sem contrato formal ou acredita em promessas de ganhos fáceis ainda corre o risco de chegar sem alojamento, visto de trabalho ou condições legais para dirigir.
Comentários
0