Brasileiros já estão parcelando compras de supermercado no cartão de crédito, aponta pesquisa

Parcelar uma televisão, um celular ou um eletrodoméstico é algo comum no Brasil. Agora, o parcelamento também está chegando a uma despesa que desaparece da despensa muito antes da última prestação: a compra do supermercado.
Pesquisa do Datafolha divulgada em abril de 2026 mostrou que 57% dos brasileiros utilizam cartão de crédito. Entre esses usuários, 13% afirmaram parcelar compras de supermercado sempre ou frequentemente. Outros 4% disseram fazer o mesmo com contas de água e luz.
O dado não significa que 13% de toda a população parcela mercado. O percentual considera especificamente quem utiliza cartão de crédito. Ainda assim, mostra que alimentos e produtos básicos já estão entrando no orçamento futuro de parte dos consumidores.
Outra pesquisa recente reforça o avanço do cartão sobre as despesas cotidianas. O Mapa de Crédito da Serasa, divulgado em julho, apontou que 63% dos brasileiros utilizaram cartão nos 12 meses anteriores e que três em cada dez recorrem à modalidade para cobrir despesas do dia a dia.
Supermercado pesa no orçamento
O avanço do crédito ocorre em um período no qual despesas básicas ocupam boa parte da renda familiar.
Levantamento da Serasa em parceria com o Opinion Box estimou em R$ 3.520 o custo médio mensal de vida do brasileiro. Supermercado, contas recorrentes e moradia responderam, juntos, por 57% dos gastos mensais considerados na pesquisa. Apenas 19% dos entrevistados disseram considerar fácil administrar pagamentos e despesas cotidianas.
Uma pesquisa da CNDL e do SPC Brasil publicada em julho também encontrou 60,1 milhões de consumidores residentes nas capitais com alguma compra parcelada. Eles representavam 37% do público pesquisado e carregavam, em média, quatro prestações em aberto. A coleta foi realizada entre 2 e 9 de janeiro de 2026.
Entre as compras feitas por impulso identificadas pelo levantamento, supermercados apareceram em 19% das respostas, atrás apenas de roupas e outros itens de vestuário.
Compra termina, mas parcela continua
O problema do supermercado parcelado é o acúmulo entre diferentes meses. Uma compra feita em agosto, por exemplo, pode continuar aparecendo na fatura quando o consumidor já precisar fazer as compras de setembro e outubro.
Se novas compras também forem parceladas, várias prestações de alimentação passam a ocupar o mesmo limite do cartão.
Parcelar diretamente no estabelecimento sem juros e pagar integralmente a fatura é diferente de deixar saldo pendente no cartão. Quando o consumidor não consegue quitar a fatura e entra no crédito rotativo ou no parcelamento financiado pelo banco, começam a incidir juros.
Dados do Banco Central mostram que as taxas do rotativo continuam elevadas e variam bastante entre as instituições financeiras. Em levantamento do BC para o período entre 30 de julho e 5 de agosto de 2026, diversas instituições apresentavam taxas anuais superiores a 200%, 300% e até 400%.
O crescimento do uso do crédito acontece ainda em um momento de inadimplência elevada. Dados da CNDL e do SPC Brasil mostraram que o país chegou a 75,08 milhões de consumidores inadimplentes em julho de 2026, equivalente a 44,75% da população adulta. O valor médio devido por inadimplente era de R$ 5.205,30.
Os números de inadimplência não permitem afirmar que o parcelamento do supermercado seja a causa dessas dívidas. Eles ajudam, porém, a mostrar o ambiente financeiro no qual cada vez mais consumidores estão usando o cartão para despesas que antes costumavam ser pagas dentro do próprio mês.
Para quem precisa recorrer ao parcelamento de alimentos com frequência, a fatura pode acabar funcionando como uma espécie de segunda despensa: cheia de compras que já foram consumidas, mas ainda não foram pagas.
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