Brasil tem vagas, mas está cada vez mais difícil segurar caminhoneiro

A ideia de que os motoristas brasileiros estão abandonando a profissão em massa aparece sempre que uma transportadora anuncia dezenas de vagas e não consegue completar a equipe. Os dados disponíveis, porém, mostram uma situação um pouco diferente.
O número de caminhoneiros com carteira assinada passou de 701.285 para 713.229 entre 2023 e 2024, crescimento de 1,7%. O problema é que o ritmo das contratações perdeu força. O saldo caiu de 26,9 mil novos postos para 14,4 mil, uma redução de 46,5% entre os períodos analisados pela ANTT.
O salário aparece no centro da discussão. Em 2024, a remuneração mediana dos motoristas contratados ficou em R$ 3.120 mensais. Um quarto recebia até R$ 2.562, enquanto apenas 10% passava de R$ 5.136. Para uma profissão que envolve carga valiosa, risco de acidente e dias longe de casa, parte dos trabalhadores considera o pagamento baixo.
Para o caminhoneiro autônomo, faturamento não significa dinheiro livre no bolso. Diesel, pneus, manutenção, seguro do caminhão, financiamento, IPVA e desvalorização do veículo reduzem o resultado dos fretes. A própria tabela de frete mínimo da ANTT usa custos fixos e variáveis, incluindo combustível, manutenção e capital investido no caminhão.
A rotina também pesa. Uma pesquisa da CNT citada pela Polícia Rodoviária Federal apontou média de 11,5 horas de trabalho por dia e mais de 8,5 mil quilômetros percorridos por mês. A PRF relaciona a perda de renda, as jornadas excessivas e as condições precárias de descanso à piora da qualidade de vida dos profissionais.
Em uma operação realizada em 2025, a PRF fiscalizou 8.588 caminhões e autuou 378 motoristas por descumprimento do descanso obrigatório. Dirigir cansado, cumprir horário de entrega e procurar um local seguro para dormir fazem parte da pressão diária na estrada.
O Brasil chegou a 188 Pontos de Parada e Descanso certificados em 2025, com mais de 14 mil vagas distribuídas por 44 rodovias. A rede cresceu, mas ainda está concentrada em determinados corredores de transporte.
Também existe o peso da vida pessoal. Ficar vários dias longe dos filhos, perder aniversários e dormir dentro da cabine faz alguns motoristas procurarem entregas urbanas, máquinas agrícolas, transporte de passageiros ou outras profissões com horário mais previsível.
Não há comprovação de uma saída em massa de todos os caminhoneiros. O que existe é uma dificuldade crescente para contratar, manter profissionais experientes e atrair jovens. O próprio Governo Federal reconheceu um déficit de 1,5 milhão de motoristas profissionais, número que reúne condutores de caminhões e ônibus.
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