Caminhoneiros dizem que profissão perdeu valorização enquanto cobrança só aumentou

Nos últimos anos, uma reclamação ganhou força entre caminhoneiros brasileiros: a responsabilidade aumentou, os custos da vida subiram e, para muitos profissionais, a valorização não acompanhou o tamanho do trabalho realizado nas estradas.
Não existe um ranking oficial que coloque a profissão de caminhoneiro entre as “menos valorizadas” do Brasil. Os números disponíveis, porém, ajudam a entender por que essa percepção aparece tanto entre os motoristas.
Dados divulgados pela ANTT mostram que, em 2024, o salário fixo médio dos motoristas de caminhão com vínculo CLT ficou em R$ 2.564, enquanto a remuneração, incluindo adicionais e benefícios considerados pelo levantamento, ficou em R$ 3.120. Metade dos profissionais recebeu entre R$ 2.562 e R$ 4.020.
O levantamento ainda mostra que o salário cresceu 6,2% entre 2023 e 2024. A remuneração avançou 6,3%. Os dois índices ficaram acima da inflação medida pelo IPCA no período, mas abaixo do reajuste de 7% registrado no salário mínimo.
Quando se olha para quem está entrando agora no setor, os números também chamam atenção. A ANTT apontou remuneração de aproximadamente R$ 3.013 para recém-contratados, contra R$ 3.559 para motoristas que estavam havia dez anos ou mais na mesma empresa.
É uma profissão que carrega uma responsabilidade grande. O motorista conduz veículos que podem pesar dezenas de toneladas, responde pela carga, enfrenta trânsito, risco de acidentes, horários de entrega e passa períodos longe da própria casa.
Em boletim publicado em 2026, o Ministério da Saúde relacionou o adoecimento de caminhoneiros a características do próprio trabalho, citando prazos curtos, falta de pausas e infraestrutura precária para alimentação e descanso entre os problemas encontrados na rotina profissional.
É justamente essa diferença entre responsabilidade e retorno financeiro que alimenta boa parte das reclamações da categoria. Para muitos caminhoneiros, não basta olhar somente o salário registrado. É preciso colocar na conta noites dormindo fora, finais de semana perdidos, alimentação na estrada e semanas longe dos filhos.
A discussão também chega aos novos profissionais. Há pessoas que gastam dinheiro para conseguir habilitação adequada, fazem cursos e querem uma oportunidade no transporte de cargas, mas encontram empresas pedindo experiência anterior. Sem a primeira oportunidade, o candidato não consegue adquirir justamente a experiência exigida.
Isso ajuda a explicar uma frase cada vez mais repetida entre motoristas quando aparece a discussão sobre falta de mão de obra: “Não falta motorista, falta valorização.”
Os próprios dados mostram que o setor continua contratando, mas perdeu ritmo. Entre julho de 2024 e junho de 2025, o saldo entre admissões e desligamentos ficou em cerca de 14,4 mil motoristas, contra 26,9 mil nos 12 meses anteriores.
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