
Foto: Reprodução / PRF
Desde 1º de agosto está em vigor uma portaria que mudou as regras para a realização de exames toxicológicos para motoristas profissionais. O levantamento feito por um laboratório que aplica esses testes mostrou que a imensa maioria dos resultados positivos aponta o uso de cocaína. No total, 25,2% dos exames foram feitos com motoristas profissionais com carteira assinada. O restante com profissionais em geral, incluindo os autônomos.
Em 5,4% dos casos com resultado positivo a substância que mais se destacou foi a cocaína com 84%.Cerca de 70% desses exames foram realizados em cinco Estados: Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os que mais tiveram casos positivos foram Minas Gerais (22,05%) e São Paulo com pouco mais de 21%.
O depoimento de um caminhoneiro que há 40 anos ganha a vida nas estradas do país é chocante. Ele afirma que a cocaína está em todos os lugares e é mais fácil encontrar cocaína na beira da estrada do que o chamado “rebite”.
As palavras desse caminhoneiro ficam claras já nos primeiros dias de vigência da portaria que tenta fechar o cerco aos motoristas que consomem drogas psicoativas e vão para o volante. O exame toxicológico é obrigatório antes de o condutor ser contratado por uma empresa, repetido a cada dois anos e meio e na demissão. Além disso, o motorista poderá ser escolhido, aleatoriamente, para realizar o teste, também exigido na renovação das CNH nas categorias C, D e E. O exame detecta o consumo de drogas até 90 dias antes da realização do teste.
Para os caminhoneiros, o uso da cocaína, assim como era, no passado, o rebite, a base de anfetamina, é para se manter acordado, reduzir o tempo da viagem e fazer mais entregas. Viagens que demorariam três dias para fazer, dormindo e descansando tranquilo, o motorista, pressionado por compromissos a pagar, pode fazer em um dia e meio ou dois e, às vezes, pressionado pelo patrão, que quer o caminhão o mais rápido possível para descarregar e carregar de novo.
Mas os efeitos são catastróficos. Há o aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca. A pessoa acha que está acordada mas o fato de ela não ter descansado faz com que seus reflexos e sua capacidade de julgamento ante uma situação no trânsito fiquem diminuídos. Se ele precisar de uma freada de emergência ou da leitura de um semáforo, essas ações ficam bem mais lentas.
Os relatos são assustadores. Há casos, inclusive, de o motorista parar no meio da estrada e falar para o policial rodoviário que está sendo perseguido por alienígenas; ou de motoristas que rodaram mais de cem quilômetros colidindo com diversos veículos e dizendo que estavam sendo perseguidos. Ou seja, eles têm alucinações e não só quando estão sob o uso da droga, mas também quando estão em abstinência.
O resultado dos testes é grave mas não revela todo o tamanho do problema. A situação pode ser ainda mais crítica considerando-se o elevado número de motoristas que driblam as exigências e não se submetem aos exames toxicológicos. Quantos deles estarão aptos a dirigir e oferecer segurança no trânsito brasileiro? Não se sabe.
Segundo o movimento SOS Estradas, há mais de 3,5 milhões de motoristas nas categorias profissionais que não cumprem as regras. Isso é muito grave pois representa cerca de 26% do total de condutores habilitados. Tem-se, assim, a ponta de um iceberg que está sendo revelado com essa política pública.
A verdade é que o motorista – tanto o particular, como o autônomo e, mesmo, os de empresas – não comparece para fazer os exames porque não vão passar. Por isso é que a positividade escondida é aquela de pessoas que não aparecem no laboratório e, logicamente, não vai haver um laudo relativo a essas pessoas.
E se muitos acidentes, hoje, são inexplicáveis só há uma causa: o uso de drogas.
Esta publicação foi modificada pela última vez em 11 de agosto de 2024 11:00
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