Caminhoneiro

Caminhoneiro já foi profissão dos sonhos, mas hoje quase ninguém quer pegar a estrada

A profissão já foi vista como símbolo de liberdade, bom dinheiro e respeito, mas hoje muitos jovens fogem da estrada por causa dos custos, riscos e rotina pesada.

Durante muito tempo, ser caminhoneiro era visto como uma profissão de respeito. Muita gente olhava para o motorista de caminhão como alguém livre, dono da própria rotina e com chance de ganhar bem. Para muitos filhos, ver o pai chegando de viagem com o bruto na porta era motivo de orgulho. O caminhão representava trabalho, força e independência.

Só que a realidade mudou bastante. Hoje, a estrada continua sendo importante para o Brasil, mas a profissão ficou mais pesada e menos atraente. A ANTT mostra que o transporte rodoviário de cargas é essencial para escoar produção e distribuir insumos pelo país, e que os autônomos ainda representam 73,27% dos transportadores registrados no RNTRC. Ou seja, o caminhoneiro continua sendo peça central, mas o peso em cima dele aumentou muito.

O custo para entrar na profissão ficou alto demais

Antigamente, o sonho de comprar um caminhão e viver do frete parecia mais possível. Hoje, para começar, o motorista precisa gastar com habilitação, cursos, documentação, manutenção e, se quiser ter o próprio caminhão, o investimento é enorme. Uma reportagem do setor aponta que a habilitação pode custar de R$ 2 mil a R$ 5 mil, dependendo do estado, enquanto um cavalo-mecânico trucado pode chegar perto de R$ 900 mil e um semirreboque carga seca pode passar de R$ 280 mil.

Para quem está começando, isso assusta. O jovem olha para esse cenário e pensa duas vezes. Além do caminhão caro, tem diesel, pneu, seguro, pedágio, oficina, rastreador, documento e risco de ficar parado esperando carga ou descarga. Quando o frete não acompanha esses custos, a conta fica apertada demais.

A estrada perdeu parte do brilho que tinha

O caminhoneiro ainda carrega o Brasil, mas a rotina dele ficou mais cansativa. Tem jornada longa, noite mal dormida, tempo longe da família, ponto de parada ruim, medo de roubo, fiscalização, pressão por prazo e frete brigado. Segundo análise do ILOS, a falta de interesse na profissão passa por viagens longas, falta de segurança nas estradas e ausência de benefícios. O estudo também aponta queda de cerca de 1,1 milhão de motoristas de caminhão e carreta entre 2013 e 2023, uma redução de 20%.

Esse dado explica bem por que a classe envelheceu. Não é que o caminhoneiro deixou de ser importante. É que menos gente nova quer entrar nessa vida. O mesmo levantamento mostra que a idade média dos motoristas chegou a 53,5 anos, e que a presença de motoristas com mais de 60 anos cresceu bastante. Enquanto isso, a renovação com jovens não acompanha o ritmo.

Os jovens não veem mais a boleia como futuro fácil

Hoje, muitos jovens preferem trabalhos com mais previsibilidade, mais tempo em casa e menos risco. A estrada exige sacrifício. Quem roda sabe que não é só pegar o caminhão e viajar. É esperar no pátio, dormir dentro da cabine, comer fora de hora, lidar com manutenção cara e voltar para casa sem saber se o lucro da viagem compensou.

Uma publicação da FETRANSPAR aponta que a falta de profissionais qualificados é o principal entrave para 65% das empresas do setor. Também mostra que, em 2024, apenas 4,1% dos motoristas tinham menos de 30 anos, enquanto 11% tinham mais de 70. Isso mostra que a profissão não está atraindo juventude como antes.

O problema não é falta de importância, é falta de valorização

A profissão de caminhoneiro não perdeu valor para o Brasil. Pelo contrário. Sem caminhão, falta produto no mercado, remédio na farmácia, peça na indústria, insumo no campo e combustível no posto. O problema é que a importância da profissão nem sempre aparece no bolso e nas condições de trabalho de quem vive na estrada.

Por isso, a classe que antes era muito cobiçada hoje sofre para atrair novos motoristas. O sonho da liberdade virou, para muita gente, medo de dívida, risco, cansaço e pouco retorno. O caminhoneiro continua sendo essencial, mas para voltar a ser uma profissão desejada, precisa ter frete mais justo, segurança, ponto de descanso decente, capacitação, respeito e uma condição real para o trabalhador viver da estrada sem trabalhar sempre no limite.

Ildemar Ribeiro

Um amante de veículos pesados devido grande influência do pai. Aos 7 anos de idade o seu maior sonho era ser motorista de transporte coletivo, no entanto, no ano de 2014 ingressou em uma empresa de transporte coletivo, como jovem aprendiz onde juntamente com seu amigo de trabalho fundou o Brasil do Trecho.

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