Motorista de caminhão desabafa sobre corrupção e discriminação na profissão

Erivelton, motorista de caminhão há 13 anos, não tem papas na língua quando o assunto é o dia a dia nas estradas brasileiras. Começou como ajudante aos 18 anos, depois de se formar como motorista em 2013. Desde então, já passou por todo tipo de situação, mas nada se compara ao que ele viveu em postos fiscais e com guardas rodoviários.
Em uma das histórias mais marcantes, ele contou como foi parado em Queimadas, na Bahia, por um guarda que inventou uma multa para extorqui-lo. “Ele pediu R$ 50 para me liberar. Se não fosse isso, meu caminhão ficaria parado até resolver o problema que ele mesmo criou”, lembra Erivelton. O motorista explicou que o guarda disse que o disco do tacógrafo estava vencido, mas na verdade, o problema era que o disco não havia sido verificado no local correto. “Ele não olhou nada, só inventou uma desculpa para me cobrar”, desabafa.
Discriminação e falta de respeito
A humilhação não para por aí. Erivelton já foi tratado como se fosse um criminoso simplesmente por ser motorista. Em um supermercado, enquanto descarregava verduras, um funcionário olhou feio para ele e disse: “Aqui não é praia, não pode entrar de short e chinelo”. O motorista, que passava o dia inteiro com roupas de trabalho, respondeu: “Rapaz, motorista trabalha assim mesmo, 24 horas no caminhão”. A situação deixou claro o preconceito que muitos caminhoneiros enfrentam no dia a dia.
“A gente sofre discriminação só por ser caminhoneiro. As pessoas olham diferente, como se a gente fosse ignorante ou mal-educado”, conta Erivelton. Ele reforça que a maioria dos motoristas tem família, formação e respeito, mas a imagem da profissão está manchada por alguns que agem de forma inadequada.
Salário baixo e condições precárias
Além da falta de respeito, o salário também é um grande problema. Erivelton diz que muitos motoristas ganham tão pouco que mal conseguem se manter na estrada. “Tem gente que passa três meses fora de casa para ganhar R$ 4 mil. Como é que uma pessoa sustenta a família assim?”, questiona. Ele lembra que muitos colegas estão deixando a profissão por não aguentarem mais as condições.
“Tem reportagem mostrando motoristas brasileiros sendo recrutados para trabalhar na Europa. Lá eles são bem pagos e respeitados. Aqui, a gente é tratado como lixo”, comenta. Segundo ele, a falta de valorização da profissão está levando muitos profissionais a buscar oportunidades no exterior.
Outro problema sério é a cobrança de impostos sobre os motoristas. “A gente paga imposto, INSS, tudo, mas quando chega na hora de se aposentar, não tem direito. Antigamente, a gente podia se aposentar com 25 anos de trabalho por causa do barulho do motor, mas tiraram isso”, explica. Ele acha que os políticos não se importam com a classe e só querem arrecadar.
Bloqueios e gerenciadoras de risco
Erivelton também contou sobre os bloqueios indevidos feitos por gerenciadoras de risco. Em uma viagem, seu caminhão foi bloqueado mais de 20 vezes na BR-116, entre Rio de Janeiro e São Paulo, por um problema na porta do baú. “Eles não desbloqueavam, mesmo eu explicando que o problema era na porta. Fiquei horas parado, correndo risco de causar um acidente”, relata. Segundo ele, as gerenciadoras não dão satisfação e muitas vezes o motorista precisa ir à justiça para resolver o problema.
“Eles bloqueiam o caminhão na estrada, sem aviso, em lugares onde não tem sinal de celular. É uma forma de judiar mesmo”, diz. Erivelton lembra que já viu casos em que motoristas desistem de brigar e acabam pagando para ser liberados, alimentando um ciclo de corrupção.
Falta de fiscalização e segurança
Outro ponto que irrita Erivelton é a falta de fiscalização real nas estradas. “A PRF fica parada em guarita, gastando dinheiro público, mas não faz patrulhamento ostensivo. Se a gente para em um posto da PRF para trocar uma lâmpada queimada, eles multam a gente”, conta. Segundo ele, a polícia está mais interessada em arrecadar do que em ajudar o trabalhador.
“Eles tratam a gente como se fôssemos bandidos. Se tem algo errado no caminhão, tem que resolver na hora, sem multa. Mas não, eles preferem multar e arrecadar”, desabafa. Erivelton acha que a polícia deveria ser mais educada e resolver os problemas no local, sem burocracia.
O que falta para mudar?
Para Erivelton, o principal problema é a falta de representatividade política para os caminhoneiros. “Os políticos só aparecem na época de eleição, prometendo mundos e fundos. Depois somem e a gente continua sofrendo”, diz. Ele acha que os motoristas deveriam ter mais voz nas decisões que afetam a profissão.
“A gente trabalha duro, sustenta o país, mas não tem respeito. Se a gente pudesse escolher, muitos iriam embora do Brasil”, conclui. Segundo ele, a única saída para mudar a situação é a união dos motoristas e a cobrança por políticas públicas que valorizem a profissão.