Rotina pesada, pressão com passageiros e salário baixo ajudam a explicar a falta de motoristas de ônibus no Brasil

A falta de motoristas de ônibus já aparece nas garagens, nas rodoviárias e nos anúncios de emprego. Empresas abrem vagas, oferecem treinamento e tentam segurar profissionais mais antigos, mas a reposição não acompanha as saídas. No transporte interestadual, o déficit chegou a cerca de 30% em 2026. São pouco mais de 60 mil motoristas em atividade para uma necessidade próxima de 86 mil.
A rotina ajuda a explicar por que tanta gente desiste. O motorista passa horas no trânsito, cumpre horários apertados, precisa cuidar da segurança de dezenas de passageiros e ainda enfrenta reclamações por atrasos que nem sempre dependem dele.
Em algumas linhas, o profissional também recebe pagamentos, orienta usuários, ajuda pessoas com mobilidade reduzida e tenta resolver confusões dentro do veículo. É muita responsabilidade para uma pessoa só.
O contato direto com passageiros virou outro peso. Discussões por causa de parada, lotação, tarifa e demora podem sair do controle. No Grande Recife, o sindicato da categoria registrou 197 afastamentos por problemas psicológicos apenas nos quatro primeiros meses de 2026. No mesmo período, foram contabilizados 96 casos de agressão contra condutores.
O salário também entra nessa conta. Um levantamento feito com microdados do Caged aponta remuneração média de R$ 2.940,15 para motoristas de ônibus urbanos, com jornada próxima de 43 horas semanais. O valor muda conforme a cidade, a empresa e o acordo coletivo, mas parte da categoria considera o ganho baixo diante do risco e do desgaste diário.
Escalas pesadas, poucos fins de semana livres e horários de madrugada dificultam a vida familiar. Para quem trabalha em viagens rodoviárias, passar vários dias longe de casa também perdeu espaço. Parte dos profissionais prefere aplicativos, táxis, transporte de cargas ou empregos com horários mais previsíveis.
Os números mostram o tamanho da mudança. Entre 2015 e 2025, a quantidade de condutores com habilitação categoria D caiu 25,1%, passando de 3,65 milhões para 2,73 milhões. Mais da metade das empresas pesquisadas relatou falta de motoristas, enquanto várias mantêm postos abertos.
Para preencher as vagas, algumas viações começaram a formar os próprios condutores. Há empresas pagando cursos, treinando funcionários de outras áreas e criando turmas voltadas para mulheres.
Sem salário mais competitivo, escala menos pesada, proteção contra agressões e apoio para a saúde mental, a vaga continua aberta. Quem permanece no volante cobre folgas, trabalha com equipes menores e enfrenta uma pressão que aumenta a cada viagem.
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