Ser CLT já foi motivo de orgulho, mas virou piada nas redes sociais

Durante décadas, conseguir um emprego com carteira assinada era visto como uma vitória dentro das famílias brasileiras. Ser CLT significava ter salário certo, férias remuneradas, décimo terceiro, FGTS e acesso a benefícios ligados à Previdência Social. Era comum pais comemorarem quando os filhos conseguiam o primeiro registro profissional.
A imagem da carteira assinada, porém, mudou bastante nos últimos anos. Nas redes sociais, ser CLT?passou a aparecer em memes relacionados a salários baixos, longos deslocamentos, cobranças no trabalho e pouca liberdade para organizar a própria rotina. Frases sobre “escapar da CLT” ganharam espaço em vídeos e publicações que apresentam o empreendedorismo como caminho rápido para ganhar mais dinheiro.
Essa mudança também está ligada ao crescimento das plataformas digitais. Produção de conteúdo, vendas pela internet, prestação de serviços, aplicativos de transporte e trabalhos como pessoa jurídica criaram novas possibilidades de renda. O número de trabalhadores por conta própria chegou a 26,1 milhões em 2025, maior resultado da série histórica do IBGE. A informalidade ainda atingia 38,7 milhões de brasileiros no fim daquele ano.
Uma pesquisa Datafolha de junho de 2025 apontou que 59% dos brasileiros preferiam trabalhar por conta própria, enquanto 39% se sentiam melhor trabalhando para uma empresa. O levantamento também mostrou uma redução na valorização da carteira assinada. A parcela que aceitava ganhar menos para manter a CLT caiu de 77%, em 2022, para 67% em 2025.
A rejeição vista na internet, porém, não significa que os direitos trabalhistas deixaram de ser importantes. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria revelou que a carteira assinada continuava sendo a opção mais procurada por quem buscava emprego. Entre pessoas de 25 a 34 anos, 41,4% priorizavam vagas CLT. Entre jovens de 16 a 24 anos, o índice era de 38,1%.
O que perdeu força foi a ideia de permanecer durante décadas na mesma empresa. Salário, estabilidade e possibilidade de crescimento continuam entre os fatores mais valorizados, mas agora dividem espaço com flexibilidade, trabalho remoto, autonomia e qualidade de vida.
A internet transformou situações comuns do emprego formal em conteúdo de humor. Ao mesmo tempo, o mercado registrou 47,8 milhões de vínculos formais em maio de 2026, mostrando que ser CLT ainda faz parte da realidade de uma grande parcela da população brasileira.
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