Vagas de um salário mínimo estão ficando abertas por semanas

Lojas, mercados, restaurantes, oficinas e pequenas empresas estão vivendo uma situação que parecia improvável há alguns anos: a vaga é anunciada, mas quase ninguém aparece. Quando o pagamento fica perto de um salário mínimo, a procura cai ainda mais e muitos candidatos desistem antes mesmo da entrevista.
Os números ajudam a entender essa mudança. O Brasil fechou o trimestre até junho de 2026 com desemprego de 5,4%, o menor índice para o período desde o início da pesquisa do IBGE, em 2012. O país tinha 103,1 milhões de pessoas ocupadas e apenas 5,9 milhões procurando trabalho. Com menos gente disponível, as empresas passaram a disputar o mesmo trabalhador.
Uma pesquisa da FGV IBRE mostrou que 62,3% das empresas enfrentavam dificuldade para contratar ou manter funcionários no fim de 2025. A construção civil liderava o problema, com 69,1%, seguida pelo comércio e pelo setor de serviços. São áreas com muitas vagas presenciais, trabalho pesado, atendimento direto ao público e escalas aos fins de semana.
O salário também pesa. Em 2026, o piso nacional é de R$ 1.621. Depois dos descontos, sobra menos no bolso. Em junho, o Dieese calculou que uma família de quatro pessoas precisaria de R$ 8.110,92 por mês para pagar despesas básicas. Em várias capitais, somente a cesta de alimentos consumia mais da metade do salário mínimo líquido.
Para quem mora longe, ainda entram na conta o tempo gasto no ônibus, alimentação fora de casa e alguém para cuidar dos filhos. Uma vaga com escala 6×1, folga apertada e salário baixo pode deixar pouca diferença no orçamento. É aí que o candidato faz as contas e resolve procurar outra coisa.
As empresas também disputam espaço com trabalhos por diária, serviços autônomos, vendas pela internet e aplicativos. Mesmo sem carteira assinada, essas atividades podem oferecer horário flexível e pagamento mais rápido. Para algumas pessoas, controlar os próprios horários vale mais do que aceitar uma rotina fixa com pouca remuneração.
A explicação de que “ninguém quer trabalhar por causa de benefício” não bate sozinha com os dados. Um estudo do Ipea apontou que o emprego formal cresceu entre as famílias mais pobres durante a expansão do Bolsa Família. O problema aparece mais ligado ao valor pago, às condições oferecidas e à quantidade menor de desempregados.
A própria pesquisa da FGV registrou que as empresas começaram a reagir. Entre aquelas que enfrentavam dificuldades, 36,2% ampliaram os benefícios, 18,9% aumentaram salários e outras passaram a treinar candidatos sem experiência. Onde a vaga continua pagando o mínimo, exige experiência, cobra disponibilidade total e oferece poucos benefícios, o anúncio pode ficar aberto por semanas.
Comentários
0