Brasil perde 1,2 milhão de motoristas de caminhão em 10 anos

O Brasil está vendo diminuir rapidamente o número de pessoas habilitadas para dirigir caminhões. Em uma década, o total de motoristas com categorias profissionais C ou E caiu de 5,6 milhões para 4,4 milhões, uma redução de 22%, segundo levantamento da consultoria Ilos citado pelo UOL. São aproximadamente 1,2 milhão de motoristas a menos.
O número chama atenção porque o caminhão ainda transporta a maior parte das mercadorias do país. Em 2024, o transporte rodoviário respondeu por cerca de 63% das cargas movimentadas no Brasil, enquanto as ferrovias ficaram com 18% e o transporte aquaviário com 14%.
Só que não é apenas a quantidade que preocupa. A profissão está envelhecendo e poucos jovens estão entrando na boleia.
Dos 4,4 milhões de motoristas considerados no levantamento, quase 60% têm 51 anos ou mais. Cerca de 11% já passaram dos 70 anos. Na outra ponta, somente 4% têm até 30 anos.
A conta começa a ficar complicada: enquanto uma parte dos profissionais mais antigos se aproxima da aposentadoria, não existe uma quantidade parecida de jovens entrando para ocupar essas vagas.
Longos períodos longe de casa, estradas ruins, roubos, acidentes, pressão por entregas e salários pouco atraentes aparecem entre os motivos apontados para a perda de interesse pela profissão. A possibilidade de trabalhar em outras atividades sem passar vários dias longe da família também pesa na escolha dos mais jovens.
Segundo Pedro Moreira, presidente da Associação Brasileira de Logística (Abralog), os salários dos caminhoneiros teriam aumentado apenas 20% em dez anos, enquanto a inflação acumulada no período ficou próxima de 100%. Para ele, essa diferença ajuda a explicar por que encontrar motorista está ficando mais difícil.
Algumas transportadoras já estão mudando a forma de contratar. A JSL, uma das maiores empresas logísticas do país, criou uma universidade própria para formação de motoristas e afirma pagar cerca de R$ 6 mil por mês para profissionais iniciantes, além de manter programas para atrair jovens, mulheres e refugiados.
A BBM Logística também tenta aumentar a presença feminina. Segundo a empresa, as mulheres representam apenas 3% de seus caminhoneiros, e encontrar profissionais habilitadas ainda é difícil.
O problema também aparece dentro das próprias famílias. Durante muito tempo era comum o filho acompanhar o pai e depois assumir o volante. Hoje, segundo transportadoras ouvidas pela reportagem, muitos filhos de caminhoneiros preferem empregos que permitam voltar para casa todos os dias, mesmo quando a renda é menor.
Um dos casos citados é o de um ex-caminhoneiro que deixou as estradas para trabalhar como motorista de aplicativo. Ele contou que tomou a decisão depois de perceber o quanto havia ficado distante dos filhos durante anos viajando.
A redução de motoristas não significa que o Brasil tenha 4,4 milhões de caminhoneiros trabalhando atualmente. O levantamento considera pessoas habilitadas nas categorias profissionais C ou E. Ainda assim, a queda de 1,2 milhão de habilitados em uma década mostra por que transportadoras começam a disputar cada vez mais quem ainda quer viver atrás do volante.
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