Mais de mil Nelore morrem após aumento de amido na ração

A morte de pouco mais de mil bovinos da raça Nelore em um confinamento do Centro-Oeste revelou um risco grave relacionado à alimentação e ao programa sanitário do rebanho. O episódio ocorreu em novembro de 2025, dentro de uma operação com aproximadamente 20 mil animais. A maioria estava entre 30 e 60 dias de cocho e apresentava ganho diário superior a 1,7 quilo.
As primeiras mortes surgiram em lotes pequenos, mas o número aumentou rapidamente. Grande parte dos bovinos era encontrada morta pela manhã, deitada de lado e com forte inchaço abdominal. Os animais com maior consumo de ração e melhor ganho de peso estavam entre os mais atingidos.
Excesso de amido favoreceu bactéria no intestino
A análise técnica conduzida pelo médico-veterinário Enrico Ortolani apontou enterotoxemia provocada pela bactéria Clostridium perfringens tipo A. Esse microrganismo pode viver em pequenas quantidades no intestino sem provocar problemas. O risco cresce quando uma carga elevada de amido não digerido chega rapidamente ao intestino delgado.
Antes do surto, a alimentação havia recebido mais concentrado energético à base de fubá. O teor de amido chegou a 49% da matéria seca da ração. Esse ambiente favoreceu a rápida multiplicação da bactéria e a liberação de toxinas, provocando hemorragias, produção intensa de gases e necrose intestinal.
A evolução era tão rápida que havia pouca chance de encontrar os bovinos ainda vivos com sinais claros da doença. O protocolo de adaptação aos concentrados foi considerado correto e os casos de acidose ruminal eram baixos, direcionando a investigação para a quantidade de amido e a cobertura vacinal.
Vacina aplicada não protegia contra o tipo A
O rebanho havia recebido vacinação contra diferentes clostridioses, incluindo proteção para Clostridium perfringens dos tipos C e D. O protocolo, porém, não contemplava o tipo A identificado no diagnóstico. Conforme o relatório técnico, não havia proteção cruzada entre esses tipos.
Para conter as mortes, o confinamento reduziu o teor de amido da dieta de 49% para 40% e aplicou uma vacina com toxoide contra o tipo A. Após as mudanças, a mortalidade caiu rapidamente.
O episódio reforça que dietas muito concentradas exigem controle próximo da quantidade de amido, equilíbrio nutricional, leitura correta do cocho e revisão do programa de vacinação. Mudanças na ração precisam de acompanhamento de nutricionista e médico-veterinário, principalmente após o primeiro mês de confinamento, quando o consumo dos bovinos começa a aumentar.
Comentários
0