Prato do brasileiro perde variedade quando o salário não acompanha o mercado

O baixo poder de compra tem mudado o que chega à mesa de milhões de famílias brasileiras. O problema nem sempre aparece como falta completa de comida. Em muitos lares, ele surge na redução da variedade, na troca de alimentos frescos por opções mais baratas e na dificuldade de manter frutas, verduras, carnes, leite e ovos durante todo o mês.
Dados da PNAD Contínua mostram que 24,2% dos domicílios do país enfrentavam algum nível de insegurança alimentar em 2024. O levantamento do IBGE considera insegurança leve quando já existe preocupação com o acesso à comida e comprometimento da qualidade da alimentação. Nos níveis moderado e grave, a quantidade disponível também começa a diminuir.
A renda tem peso direto nesse cenário. Quando aluguel, energia, gás, transporte e remédios consomem boa parte do orçamento, a compra no mercado passa a ser feita pelo preço e pelo rendimento de cada produto. Arroz, feijão, macarrão, farinha e pão costumam garantir mais refeições, enquanto itens com menor durabilidade ou valor mais alto acabam comprados em menor quantidade.
Isso não significa que arroz com feijão forme uma refeição ruim. A combinação oferece nutrientes importantes e faz parte de uma alimentação tradicional equilibrada. A deficiência aparece quando o prato fica repetitivo por longos períodos e quase não recebe legumes, verduras, frutas e fontes variadas de proteína.
O custo dos alimentos continua ocupando uma parcela alta da renda. Em junho de 2026, a cesta básica chegou a R$ 965,47 em São Paulo, R$ 937,93 em Cuiabá e R$ 920,94 no Rio de Janeiro. Em Aracaju, onde foi registrado o menor valor entre as capitais analisadas, o conjunto custou R$ 630,40. O salário mínimo vigente era de R$ 1.621.
A dificuldade não se limita ao Brasil. Relatório divulgado por organismos das Nações Unidas apontou que 181,9 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe não conseguiam pagar regularmente por uma dieta saudável em 2024. O custo regional desse tipo de alimentação aumentou 3,8% naquele ano.
No dia a dia, a baixa renda pode criar uma alimentação com calorias suficientes, mas com pouca diversidade de vitaminas, minerais, fibras e proteínas. O resultado também convive com o crescimento do excesso de peso, já que produtos baratos, prontos e ultraprocessados podem ocupar o espaço de alimentos frescos no orçamento familiar.
Feiras, hortas urbanas, alimentação escolar e compras de produtos da estação ajudam a ampliar o acesso, mas não substituem uma renda capaz de sustentar compras regulares.
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