Vaga para dois motoristas no mesmo caminhão existe, mas encontrar uma dupla vira problema

Encontrar caminhoneiro já virou problema para boa parte das transportadoras brasileiras. Quando a vaga exige que dois motoristas passem vários dias trabalhando no mesmo caminhão, a seleção pode ficar ainda mais complicada.
Pesquisa da NTC&Logística aponta que 88% das transportadoras têm dificuldade para contratar motoristas e agregados. Entre empresas que possuem veículos parados por falta de profissionais, a média chega a oito caminhões sem trabalhar.
Não existe, porém, um levantamento nacional mostrando quantos caminhoneiros recusam especificamente vagas em dupla. O que acontece é que esse tipo de trabalho acrescenta uma condição que não existe na vaga convencional: o motorista precisa aceitar dividir por horas ou dias um espaço pequeno com outra pessoa.
A cabine passa a ser local de trabalho, descanso e convivência. Para dar certo, os dois precisam combinar horários, limpeza, temperatura do ar-condicionado, música, alimentação, paradas e até pequenos hábitos pessoais. Uma incompatibilidade que parece pequena no primeiro dia pode ficar pesada depois de vários dias na estrada.
Muitos caminhoneiros também estão acostumados a trabalhar sozinhos. O profissional organiza suas paradas, cuida do caminhão do seu jeito e tem privacidade quando encerra o período ao volante. Em uma operação com dupla, boa parte dessa liberdade desaparece.
Para a empresa, colocar dois motoristas no caminhão pode ser interessante em operações que precisam manter o veículo rodando por mais tempo e cumprir rotas longas. A modalidade existe no transporte brasileiro e aparece até em convenções coletivas, que tratam do revezamento de dois profissionais no mesmo veículo.
Só que existe uma diferença importante nas regras atuais. Em 2023, o Supremo Tribunal Federal derrubou o trecho da Lei dos Caminhoneiros que permitia considerar como repouso o período em que um dos motoristas descansava com o caminhão em movimento. Para o STF, as condições dentro de um veículo rodando, com barulho, trepidação e irregularidades da estrada, não garantem descanso adequado.
Isso significa que ter dois profissionais no mesmo veículo não libera a transportadora para simplesmente manter o caminhão rodando sem respeitar os períodos de descanso previstos para cada motorista.
A contratação também depende de encontrar duas pessoas que funcionem bem juntas. Não basta ter CNH, experiência e conhecimento de estrada. Uma empresa pode encontrar dois bons motoristas individualmente e, ainda assim, descobrir que eles não querem dividir cabine ou não conseguem trabalhar juntos durante viagens longas.
O problema aparece justamente quando o mercado já possui menos profissionais disponíveis. O setor relata caminhões parados e disputa motoristas experientes, enquanto parte dos mais novos prefere trabalhos que permitam voltar para casa com maior frequência.
Para tornar uma vaga em dupla mais atraente, salário e benefícios acabam pesando bastante. Se o motorista entende que terá menos privacidade, ficará mais tempo fora de casa e precisará dividir a cabine durante boa parte da viagem, uma vaga pagando praticamente o mesmo que um trabalho individual pode perder candidatos antes mesmo da entrevista.
É aí que algumas transportadoras encontram uma conta difícil: colocar dois motoristas no caminhão pode ajudar a operação, mas primeiro é preciso encontrar dois profissionais dispostos a dividir não apenas o volante, mas boa parte da vida na estrada.
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