
Caminhão dos correios Foto: Correios
A partir de uma auditoria sigilosa do Tribunal de Contas da União a que a revista VEJA teve acesso, um estudo aponta que os Correios enfrentam risco de insustentabilidade econômico‑financeira no longo prazo, o que pode comprometer sua continuidade. O relatório revela déficits constantes, gestão ineficiente e uso de crédito para cobrir despesas correntes — inclusive previdenciárias — em vez de financiar investimentos.
Entre novembro de 2019 e novembro de 2023, cerca de 43% das mais de 5.300 licitações dos Correios apresentaram indícios de irregularidades, como conluio, fornecedores com restrições ou participação única de licitantes, conforme análise dos auditores. Esses problemas estruturais reforçam o alerta de que a estatal não consegue honrar seus compromissos sem depender de recursos do Tesouro Nacional.
O plano estratégico dos Correios para 2023‑2027 reconhece explicitamente que “manter‑se no mercado é o atual desafio estratégico da ECT”, ainda que a empresa atenda quase a totalidade dos municípios brasileiros e entregue cerca de 11,7 milhões de objetos diariamente. Mesmo com essa presença, os auditores alertam para a queda de receita no segmento de encomendas, que representa mais de 50% do faturamento, e para a perda de participação de mercado frente à concorrência de plataformas como Mercado Livre, Amazon e Shopee.
Os prejuízos se agravam: em 2024, o déficit primário atingiu R$ 2,59 bilhões, enquanto no primeiro trimestre de 2025 o saldo negativo já chega a R$ 1,7 bilhão — mais que o dobro dos primeiros meses de 2024. Diante desse quadro, a empresa alertou o governo sobre a necessidade de aporte emergencial que pode variar entre R$ 2 e R$ 5 bilhões para evitar um colapso financeiro.
Em resposta, os Correios anunciaram um plano de reequilíbrio que inclui aumento dos investimentos de cerca de R$ 447 milhões por ano (média de 2019 a 2022) para mais de R$ 792 milhões em 2023 e 2024. A empresa também se comprometeu com cortes de R$ 1,5 bilhão em despesas ainda este ano e em 2026, visando restabelecer o equilíbrio operacional.
Para evitar o colapso, o TCU recomendou ao Ministério das Comunicações e aos Correios reforçar a governança corporativa, modernizar a gestão de contratos, além de investir em tecnologia e transparência dos custos operacionais. Essas ações foram descritas como determinantes para garantir a prestação do serviço postal universal sem depender sistematicamente de recursos públicos.
O cenário descrito pela auditoria indica que, sem medidas estruturais consistentes e profundas, os Correios podem não conseguir se manter no longo prazo enquanto empresa independente — fato que gera dúvidas sobre sua sobrevivência e sustentabilidade além de comprometer um serviço público universal historicamente presente em todo o Brasil.
Esta publicação foi modificada pela última vez em 5 de agosto de 2025 08:40
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