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Governo aperta o caminhoneiro com o frete baixo que nasce longe da cabine

O caminhoneiro sente a punição primeiro porque está na ponta da estrada

Quando o assunto é frete baixo, muita gente da estrada sente que o governo acaba pegando mais pesado com o caminhoneiro do que com quem contrata a carga por preço apertado. Essa sensação não vem do nada. O motorista é quem está visível na rodovia, passa pela balança, apresenta documento, enfrenta fiscalização, corre prazo, dorme fora de casa e ainda precisa provar que está tudo certo. Já quem colocou o valor do frete lá embaixo muitas vezes está longe da estrada, sentado no escritório, fechando contrato ou empurrando o preço para baixo.

O ponto mais importante é que o frete baixo não nasce dentro da cabine. Ele geralmente começa antes da viagem, na negociação entre embarcador, transportadora, agenciador e motorista. A própria ANTT trata o piso mínimo do frete como uma regra para impedir que a viagem saia por valor abaixo do necessário, levando em conta distância, tipo de carga e número de eixos. A agência também informa que essa tabela precisa ser atualizada a cada seis meses ou sempre que o diesel variar mais de 5%.

O problema é que o motorista aparece mais fácil na fiscalização

Na prática, é mais simples fiscalizar o caminhão na estrada do que provar toda a cadeia de pressão que fez o frete chegar baixo. O caminhoneiro está ali com a carga, com o caminhão, com a nota e com o prazo para cumprir. Se tiver problema de documento, peso, cadastro ou operação, ele sente a pressão na hora. Por isso, muita gente da boleia enxerga a fiscalização como algo que chega mais rápido no motorista do que em quem pagou mal pelo frete.

Mesmo assim, a lei também prevê punição para empresas e contratantes. No RNTRC, por exemplo, a ANTT informa que o contratante pode ser multado em R$ 3.000,00 se contratar transporte rodoviário remunerado de cargas de transportador sem inscrição regular. A mesma página mostra que o RNTRC é obrigatório para Transportador Autônomo de Cargas, Empresa de Transporte Rodoviário de Cargas e Cooperativa de Transporte de Cargas.

O frete baixo agora pode ser travado antes da viagem

Uma mudança importante é que o governo passou a apertar a fiscalização na origem do frete. Em março de 2026, a ANTT informou que uma nova medida tornou o CIOT obrigatório e endureceu as penalidades, com bloqueio na origem, suspensão de registros e multas que podem chegar a R$ 10 milhões. A ideia é impedir que a operação irregular saia do papel antes mesmo do caminhão pegar a estrada.

Isso muda o jogo porque joga mais responsabilidade em quem contrata e registra a operação. Segundo o portal O Carreteiro, com a nova regra, o CIOT só é gerado se o valor estiver dentro do piso mínimo. Se o frete estiver abaixo da tabela, o CIOT não sai; sem CIOT, o MDF-e não pode ser emitido; e sem MDF-e, a viagem não deveria acontecer. A reportagem também explica que, quando há contratação de caminhoneiro autônomo, o embarcador deve emitir o CIOT; quando a contratação envolve transportadora, a empresa fica responsável.

A conta que pesa no bolso de quem roda

O caminhoneiro sente o prejuízo porque o frete baixo não paga só a viagem. Ele precisa cobrir diesel, pneu, manutenção, comida na estrada, pedágio, diária, espera para carregar, espera para descarregar e o risco de ficar parado sem receber. A Edenred Mobilidade explica que o piso mínimo existe justamente para evitar que o valor pago fique abaixo dos custos reais da operação, como combustível, desgaste do veículo e manutenção.

O problema é que, quando o valor é espremido, quem sofre primeiro é quem está no trecho. O contratante quer reduzir custo, a transportadora quer manter margem e o motorista acaba recebendo a pressão final. Ele roda cansado, pega fila, passa dias longe de casa e ainda precisa aceitar proposta ruim porque caminhão parado também dá prejuízo.

A fiscalização cresceu, mas a dúvida é onde ela aperta mais

Em 2026, a ANTT aplicou mais de R$ 354 milhões em multas por descumprimento do piso mínimo do frete, com mais de 90 mil autuações, segundo levantamento divulgado pela Mundo Logística com dados obtidos pelo g1 junto à agência. O número mostra que a fiscalização contra frete abaixo do piso cresceu bastante e passou a mirar a irregularidade de forma mais forte.

Mesmo assim, para o caminhoneiro, a sensação continua sendo de desvantagem. Ele é o elo mais exposto da corrente. Quando a carga atrasa, cobram dele. Quando o frete é baixo, o bolso dele sente. Quando tem fiscalização na estrada, é ele quem para. E quando a viagem não fecha a conta, muitas vezes o prejuízo fica com quem segurou o volante, não com quem apertou o preço lá no começo.

Esta publicação foi modificada pela última vez em 4 de maio de 2026 20:18

Ildemar Ribeiro

Um amante de veículos pesados devido grande influência do pai. Aos 7 anos de idade o seu maior sonho era ser motorista de transporte coletivo, no entanto, no ano de 2014 ingressou em uma empresa de transporte coletivo, como jovem aprendiz onde juntamente com seu amigo de trabalho fundou o Brasil do Trecho.

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