Se o Brasil produz tanto petróleo, por que ainda precisa importar diesel e gasolina?

O Brasil produz cada vez mais petróleo. Mesmo assim, navios continuam chegando aos portos carregados de diesel, gasolina e outros derivados.
A pergunta parece inevitável: se temos tanto petróleo, por que precisamos importar combustível?
Os dados mais recentes mostram que a resposta mudou bastante em relação ao que se dizia há alguns anos.
Em 2025, o Brasil produziu em média 3,77 milhões de barris de petróleo por dia, maior resultado anual da história até então. Cerca de 80% dessa produção veio do pré-sal. Em junho de 2026, a produção nacional já havia alcançado 4,475 milhões de barris por dia.
O problema é que produzir petróleo e produzir diesel são duas coisas diferentes.
Segundo o Anuário Estatístico 2026 da ANP, o parque brasileiro tinha, no fim de 2025, 17 refinarias com capacidade nominal de processamento de petróleo, somando aproximadamente 2,42 milhões de barris por dia. A produção de petróleo do país, portanto, já é muito maior que a capacidade instalada para refiná-lo internamente.
É por isso que uma grande quantidade do petróleo brasileiro é exportada. Em 2025, as exportações líquidas de petróleo chegaram a 1,7 milhão de barris por dia.
Mas existe uma correção importante em relação a uma explicação muito repetida na internet: não é verdade que as refinarias brasileiras foram feitas apenas para petróleo leve importado e não conseguem processar o petróleo nacional.
Os próprios números mostram isso.
Em 2025, aproximadamente 89% do petróleo processado pelas refinarias brasileiras era de origem nacional, segundo os dados da ANP. Apenas cerca de 11% do petróleo cru processado era importado.
Na Petrobras, o avanço do petróleo brasileiro é ainda mais evidente. Em 2025, 70% da carga processada nas refinarias da companhia veio do pré-sal. No primeiro trimestre de 2026, essa participação continuou em 69%.
Também não é correto tratar todo petróleo brasileiro como “pesado”. A produção nacional mudou muito com o pré-sal. Campos como Búzios e Tupi produzem óleos de qualidade bastante diferente dos petróleos pesados que marcaram parte da produção brasileira no passado. A própria Petrobras classifica grandes acumulações do pré-sal como óleos de boa qualidade.
Então por que ainda importamos?
Porque uma refinaria não transforma cada barril de petróleo somente em diesel. Do mesmo barril saem diferentes proporções de diesel, gasolina, GLP, querosene de aviação, nafta, óleo combustível e outros produtos. A quantidade de cada derivado depende do petróleo utilizado e, principalmente, da configuração tecnológica de cada refinaria. A ANP explica que as características do óleo influenciam diretamente os processos e o perfil dos produtos obtidos.
E o maior buraco brasileiro continua sendo o diesel.
Dados consolidados pela ANP mostram que o Brasil importou aproximadamente 17,1 milhões de metros cúbicos de óleo diesel em 2025, ou cerca de 17,1 bilhões de litros. Também entraram no país aproximadamente 3,5 bilhões de litros de gasolina A.
Em relatório publicado em 2026, o Ministério de Minas e Energia afirmou que o Brasil ainda precisava importar mais de 25% do óleo diesel consumido no país, volume superior a 1 milhão de metros cúbicos por mês.
Portanto, a aparente contradição começa a fazer sentido.
O Brasil tem petróleo suficiente, mas não possui capacidade e configuração de refino suficientes para transformar toda essa produção exatamente na quantidade de diesel, gasolina e outros derivados que o mercado demanda.
Importar determinados tipos de petróleo também continua fazendo parte da operação. Refinarias podem combinar diferentes óleos para obter uma carga mais adequada aos equipamentos e ao produto desejado. Isso não significa incapacidade de processar petróleo brasileiro, já que hoje ele representa a grande maioria do petróleo efetivamente refinado no país.
Outro ponto da versão antiga que precisa ser atualizado é a venda das refinarias.
O plano de obrigar a Petrobras a vender oito unidades pertence a outro período. A companhia chegou a vender a antiga RLAM, hoje Refinaria de Mataripe, a Refinaria de Manaus e a SIX. Depois, a obrigação de vender as demais unidades foi encerrada no acordo com o Cade, e Repar, Rnest, Regap, Refap e Lubnor foram retiradas da carteira de desinvestimentos.
A estratégia atual virou na direção oposta: a Petrobras está novamente investindo para ampliar o refino.
No Plano de Negócios 2026-2030, a companhia prevê elevar sua capacidade instalada de aproximadamente 1,8 milhão para 2,1 milhões de barris por dia até 2030, acrescentando cerca de 320 mil barris diários. A participação do diesel na produção deverá passar de 40% para 45%.
A expansão da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, é uma das principais peças desse plano. Com o segundo trem, a capacidade da unidade deverá chegar a 260 mil barris por dia em 2029, praticamente o dobro da capacidade atual.
As refinarias também estão longe de simplesmente operar ociosas. No segundo trimestre de 2026, o parque da Petrobras atingiu Fator de Utilização de 101%, enquanto a produção de derivados chegou a 1,9 milhão de barris por dia.
Isso também muda outro argumento antigo: atualmente, aumentar apenas a utilização das refinarias existentes não resolveria sozinho a dependência de diesel importado, porque várias unidades já trabalham próximas de seus limites. O caminho passa por ampliação de capacidade, novas unidades dentro das refinarias existentes e aumento da conversão para produtos como diesel S10.
Também mudou a política de preços. Desde 2023, a Petrobras não utiliza mais a antiga política de paridade de importação da mesma forma. Sua estratégia considera os mercados nacional e internacional, alternativas de fornecimento ao cliente e o custo de oportunidade da própria companhia, com a premissa declarada de evitar o repasse imediato de toda volatilidade internacional.
No fim, a explicação mais correta em 2026 é simples:
o Brasil já produz muito mais petróleo do que consegue refinar, processa majoritariamente petróleo nacional e exporta o excedente. Ao mesmo tempo, sua capacidade de produzir determinados derivados, especialmente diesel, ainda não acompanha tudo o que o país consome.
É por isso que podemos ver petróleo brasileiro saindo em navios enquanto, em outros portos, chegam navios carregados de diesel.
Não é porque o Brasil não consiga refinar seu próprio petróleo. É porque autossuficiência em petróleo cru não é a mesma coisa que autossuficiência em combustíveis.
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