Brasil tem gente interessada em dirigir caminhão, mas salário e condições afastam profissionais das vagas

É comum ouvir transportadoras relatarem dificuldade para encontrar motoristas de caminhão, principalmente para operações de longa distância. Mas os números recentes mostram que o problema brasileiro não pode ser resumido simplesmente à falta de pessoas dispostas a entrar na profissão.
A edição de 2026 do Programa Mais Motoristas, do SEST SENAT, recebeu 138.586 inscrições de pessoas interessadas em mudar a categoria da CNH e buscar qualificação profissional. O resultado foi cerca de 150% maior que o primeiro edital, realizado em 2023, quando foram registrados 55.550 candidatos.
O número não permite afirmar que existam hoje 138 mil caminhoneiros prontos para ocupar qualquer vaga. Parte dos participantes ainda precisa mudar a habilitação para C, D ou E e passar pela formação. Mas ele mostra que existe um contingente expressivo de brasileiros interessado em trabalhar profissionalmente ao volante.
Ao mesmo tempo, o próprio SEST SENAT reconhece que empresas do transporte enfrentam dificuldades para encontrar profissionais com a qualificação exigida para determinadas funções.
É aí que aparece uma diferença importante: ter pessoas querendo trabalhar não significa ter profissionais que atendam imediatamente aos requisitos das transportadoras ou que aceitem as condições oferecidas.
Salário-base de carreteiro fica perto de R$ 2,7 mil
Dados do Caged referentes ao período de julho de 2025 a junho de 2026 mostram salário médio de R$ 2.717,88 para motorista carreteiro, com mediana de R$ 2.713. Os números consideram salário-base CLT e não incluem automaticamente diárias, horas extras, prêmios e outros adicionais.
Para uma profissão que pode exigir CNH categoria E, EAR, experiência com carreta, viagens por vários estados e dias ou semanas longe de casa, esse salário inicial ajuda a entender por que algumas oportunidades encontram dificuldade para atrair candidatos.
Isso não significa que todo carreteiro ganhe apenas R$ 2,7 mil. Em operações de longa distância, adicionais e premiações podem elevar bastante o pagamento mensal. O problema é que essa composição varia de empresa para empresa.
Em algumas vagas, o motorista também encontra uma barreira conhecida por quem acaba de conseguir a categoria E: a exigência de experiência anterior com veículos pesados.
A situação cria um círculo complicado. A empresa procura alguém experiente porque vai entregar um conjunto de alto valor para o profissional dirigir. O motorista recém-habilitado, por outro lado, precisa justamente de uma primeira oportunidade para conseguir a experiência que aparece no anúncio.
Rotina também pesa na decisão
Salário não é o único ponto.
Um levantamento da Confederação Nacional do Transporte descreve entre os problemas enfrentados pelos caminhoneiros longos períodos longe da família, risco de roubos e assaltos, desconforto para dormir, alimentação inadequada e jornadas desgastantes. A pesquisa também cita baixos ganhos entre as preocupações dos profissionais com o futuro da atividade.
Isso ajuda a explicar por que um motorista habilitado pode optar por trabalhar em uma operação urbana, dirigir ônibus, trabalhar em outro setor ou simplesmente recusar uma vaga rodoviária que exija muitos dias fora de casa.
Há ainda uma diferença enorme entre conduzir um caminhão de distribuição regional e assumir um bitrem, rodotrem ou conjunto de nove eixos em viagens de longa distância. Nem todo motorista com categoria compatível está preparado ou disposto a realizar qualquer tipo de operação.
Mais de 138 mil inscrições mostram que interesse existe
O Programa Mais Motoristas foi criado justamente para aumentar a quantidade de profissionais qualificados. O edital de 2026 financia processos de mudança da CNH para as categorias C, D e E, além de oferecer capacitação voltada ao trabalho como motorista profissional.
Os aproximadamente 138 mil inscritos estão atualmente passando pelas etapas do programa, e candidatos considerados aptos poderão ser chamados para formação de acordo com o cronograma previsto.
O resultado não prova que o Brasil já tenha motoristas qualificados suficientes para preencher todas as vagas existentes. A distribuição geográfica, a categoria da CNH, a experiência e o tipo de operação precisam ser considerados.
Mas enfraquece a ideia de que simplesmente “ninguém mais quer ser caminhoneiro”.
Há muita gente tentando entrar no setor. Para transformar esse interesse em motoristas permanecendo por anos na profissão, a discussão passa também por salário, treinamento para iniciantes, tempo longe de casa, segurança, descanso e condições oferecidas pelas transportadoras.
A dificuldade encontrada por algumas empresas pode ser menos uma falta absoluta de brasileiros dispostos a dirigir e mais um desencontro entre o profissional que procura oportunidade e a vaga que ele considera compensadora para assumir a estrada.
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