Brasil aparece entre os países com maior falta de caminhoneiros e enfrenta crise nas transportadoras
O Brasil enfrenta uma escassez de caminhoneiros que já compromete o funcionamento de transportadoras e ameaça a capacidade de movimentação de cargas pelo país. Um levantamento internacional aponta que 11% das vagas para motoristas de caminhão estão sem profissionais, índice equivalente à média dos mercados pesquisados.
Os números fazem parte do Global Driver Shortage Report 2025, divulgado em junho de 2026 pela União Internacional dos Transportes Rodoviários (IRU). A pesquisa analisou 18 mercados e identificou aproximadamente 2,9 milhões de postos de trabalho não preenchidos no transporte rodoviário de cargas.
O problema brasileiro também aparece nas pesquisas nacionais. Um levantamento da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), divulgado em 2026, revelou que 88% das transportadoras enfrentam dificuldades para contratar motoristas e profissionais agregados.
Entre as empresas que informaram manter veículos parados por falta de condutores, a média chegou a oito caminhões fora de operação.
Brasil registra déficit de 11% de caminhoneiros em pesquisa internacional
A falta de profissionais não atinge apenas o Brasil. Países da Europa, da Ásia e da Oceania também enfrentam dificuldades para encontrar motoristas qualificados, principalmente para viagens de longa distância e transporte especializado.
Na comparação internacional apresentada pela IRU, o Uzbequistão registrou uma taxa de vagas não preenchidas de 15%, seguido pelo México, com 14%. A Europa apresentou 13%, a Austrália 12%, o Brasil 11% e a China 10%.
Déficit de caminhoneiros por mercado
Percentual de postos não preenchidos, segundo dados de 2025 da IRU, divulgados em 2026. Europa representa um mercado regional.
0%4%8%12%16%UzbequistãoMéxicoEuropaAustráliaBrasilChinaFonte: Global Driver Shortage Report 2025, IRU. Comparação de mercados selecionados, não um ranking de todos os países do mundo.
Embora o Brasil não tenha a maior taxa entre os mercados apresentados, a participação do país na pesquisa mostra que a dificuldade de contratar caminhoneiros acompanha uma crise internacional de mão de obra no transporte de cargas.
Déficit de motoristas no Brasil pode chegar a 250 mil profissionais
O tamanho da falta de caminhoneiros no Brasil ainda apresenta divergências entre as entidades do setor.
Em agosto de 2026, o presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Vander Costa, afirmou que o déficit brasileiro poderia chegar a 250 mil motoristas. Outras organizações trabalham com estimativas próximas de 120 mil profissionais.
A diferença mostra que ainda não existe um número nacional consolidado e aceito por todas as entidades. A própria CNT informou que estava desenvolvendo um diagnóstico específico sobre o problema.
A escassez aparece principalmente em operações que exigem experiência e certificações adicionais, como transporte de produtos perigosos, cargas de alto valor, veículos e transporte internacional.
As dificuldades de contratação são especialmente relevantes nos corredores logísticos do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde circula uma parcela importante das cargas do agronegócio, da indústria e do comércio.
Número de motoristas habilitados caiu 22% em dez anos
Outro dado revela a dificuldade de renovação da categoria. Informações da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), analisadas pelo Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS), indicam que o número de condutores habilitados nas categorias C e E caiu de aproximadamente 5,6 milhões em 2015 para 4,4 milhões em 2025.
A redução foi de cerca de 22% em uma década. Esses números abrangem pessoas habilitadas nessas categorias, incluindo aquelas que não trabalham atualmente como caminhoneiras.
Além da queda no número de habilitados, o envelhecimento dos profissionais preocupa as empresas de transporte.
Na pesquisa internacional da IRU, 24% dos caminhoneiros brasileiros tinham 55 anos ou mais, enquanto apenas 11% estavam abaixo dos 25 anos. A idade média dos motoristas no país ficou entre 42 e 44 anos.
Jovens estão deixando de seguir a profissão de caminhoneiro
A renovação dos motoristas também encontra resistência dentro das próprias famílias ligadas ao transporte rodoviário.
Uma pesquisa da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), realizada com 2.002 caminhoneiros autônomos entre junho e agosto de 2025, mostrou que 86% dos entrevistados afirmaram que nenhum de seus filhos pretendia seguir a profissão.
O levantamento também identificou que 23% dos participantes desejavam abandonar a atividade, enquanto 82% afirmaram não se sentir valorizados profissionalmente.
As longas jornadas, os períodos longe de casa, os riscos nas rodovias e as despesas relacionadas à atividade aparecem entre os desafios enfrentados por quem trabalha no transporte de cargas.
Para novos profissionais, a necessidade de obter habilitação adequada e adquirir experiência na condução de veículos pesados representa outra barreira de entrada.
Falta de caminhoneiros pode pressionar frete e transporte de mercadorias
A dificuldade para contratar motoristas já representa um obstáculo ao crescimento de empresas de logística e transporte rodoviário.
Quando uma transportadora mantém caminhões parados por falta de profissionais, perde capacidade de atender clientes e assumir novos contratos. A redução da oferta de transporte também pode aumentar a pressão sobre os custos operacionais.
O impacto pode alcançar diferentes setores da economia, incluindo agronegócio, supermercados, indústrias e distribuidores que dependem de entregas regulares.
Segundo a IRU, o transporte rodoviário movimenta mais de 65% do volume de mercadorias no Brasil, o que aumenta a exposição das cadeias de abastecimento à escassez de motoristas.
Uma eventual elevação dos custos de transporte pode influenciar os preços dos fretes e das mercadorias, embora esse efeito dependa também de combustível, pedágios, demanda e condições do mercado.
Transportadoras buscam novos profissionais para evitar caminhões parados
Diante da dificuldade de contratação, empresas e entidades do transporte passaram a discutir alternativas para atrair motoristas e ampliar a formação profissional.
Entre as medidas estão programas de capacitação, incentivo à obtenção das categorias D e E da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), melhorias nas condições de trabalho e iniciativas para aumentar a participação de jovens e mulheres na atividade.
O Brasil já apresenta um resultado relevante nesse último ponto. As mulheres representam aproximadamente 10% dos caminhoneiros brasileiros, a maior participação feminina entre os mercados analisados pela IRU em seu levantamento de 2025.
Para Danilo Guedes, vice-presidente da NTC&Logística, o problema deixou de ser uma dificuldade pontual de contratação e passou a limitar a expansão das operações de transporte. A avaliação foi publicada pela IRU em 6 de agosto de 2026.
Com motoristas experientes próximos da aposentadoria e uma entrada insuficiente de novos trabalhadores, as transportadoras enfrentam o desafio de manter suas frotas em circulação. A formação de profissionais e a capacidade de oferecer condições atrativas de trabalho estão entre as principais respostas discutidas pelo setor.
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