Mais de meio século depois, Transamazônica ainda prende caminhões na lama por dias

A Transamazônica foi aberta na década de 1970 com a promessa de integrar regiões distantes do país. Mais de meio século depois, parte da BR-230 ainda impõe uma viagem pesada para caminhoneiros que cruzam o Pará e o Amazonas. Quando a chuva aperta, o chão de terra vira lama, surgem atoleiros e carretas carregadas podem ficar paradas por horas ou dias.
O problema aparece com força entre Rurópolis, Placas, Uruará e Medicilândia, no oeste paraense. A falta de pavimento, drenagem e sinalização deixa o trajeto vulnerável durante o período chuvoso. O prejuízo vai além do atraso na entrega. Há aumento no consumo de diesel, desgaste de pneus, quebra de suspensão, danos à carga e gasto extra com alimentação e hospedagem.
Em maio de 2026, uma decisão da Justiça Federal determinou medidas urgentes no trecho entre Rurópolis e Medicilândia. A ordem prevê diagnóstico técnico, reparos emergenciais, cronograma de recuperação e início das obras dentro dos prazos estabelecidos. A ação foi apresentada pelo Ministério Público Federal depois de uma investigação iniciada em 2022. Uma inspeção feita em abril de 2025 registrou pista escorregadia e até o tombamento de um caminhão.
No Amazonas, o drama também atingiu o distrito de Matupi, em Manicoré. Em abril de 2025, a comunidade chegou a permanecer 36 dias isolada após a cheia do rio Madeira tornar a BR-230 praticamente intransitável. O bloqueio dificultou a chegada de alimentos e insumos e aumentou o risco de formação de grandes filas de carretas.
Há obras e projetos em andamento. O DNIT informou que a ponte sobre o rio Xingu, entre Anapu e Vitória do Xingu, chegou a 50% de execução no balanço de 2025. A estrutura terá 700 metros e substituirá a travessia feita por balsas, reduzindo o tempo gasto no deslocamento das cargas.
Em junho de 2026, o Ministério dos Transportes anunciou um edital para pavimentar 125 quilômetros entre Uruará, Placas e Rurópolis, com investimento estimado em cerca de R$ 1 bilhão. O trecho já possui licença ambiental e a previsão divulgada é iniciar os serviços ainda em 2026. A etapa entre Medicilândia e Uruará depende da conclusão do licenciamento antes de uma nova licitação.
Enquanto contratos, projetos e licenças avançam, caminhoneiros continuam calculando a viagem pela chuva, pelo peso da carga e pela chance de encontrar o caminho bloqueado. Na Transamazônica, um frete que parece normal no mapa ainda pode terminar com dias de espera no barro.
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