Falta de caminhoneiros pode deixar o frete mais caro no Brasil
A falta de caminhoneiros profissionais está deixando de ser apenas uma reclamação das transportadoras e começa a aparecer nos números do setor. Com dificuldade para contratar, algumas empresas mantêm vagas abertas, reduzem viagens e deixam caminhões parados no pátio.
Um monitoramento da Confederação Nacional do Transporte apontou que 44,6% das empresas de transporte de cargas estavam com vagas abertas para motoristas no começo de 2026. Outra pesquisa da CNT, usada pela entidade no debate sobre jornada de trabalho, mostrou que 65,1% das transportadoras relataram falta de profissionais para dirigir seus veículos. Os percentuais medem situações diferentes, mas indicam que encontrar motoristas se tornou um problema recorrente.
Poucos jovens estão entrando na profissão
A idade média dos caminhoneiros brasileiros chegou a 45,3 anos, segundo a pesquisa “Perfil e Preferências dos Caminoneiros”, divulgada pela CNT em 2025.
Apenas 9,5% dos profissionais tinham menos de 30 anos. Na outra ponta, 12,9% já estavam com 60 anos ou mais. A maior parcela, equivalente a 32,6%, estava concentrada entre 40 e 49 anos.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Empresas de cargas com vagas abertas | 44,6% |
| Empresas que relataram falta de motoristas | 65,1% |
| Idade média dos caminhoneiros | 45,3 anos |
| Motoristas com menos de 30 anos | 9,5% |
| Motoristas com 60 anos ou mais | 12,9% |
Outro sinal aparece na quantidade de pessoas habilitadas na categoria C. Dados da Secretaria Nacional de Trânsito citados em levantamento de 2025 mostram uma queda de 3,58 milhões de habilitados em 2014 para aproximadamente 1,33 milhão em 2024, redução de 62,89%.
Esse número não representa sozinho a quantidade de caminhoneiros em atividade, pois motoristas também podem possuir categorias D ou E. Mesmo assim, a queda ajuda a mostrar que a base de condutores habilitados para veículos de carga não está sendo renovada no mesmo ritmo de antes.
Por que a falta de motorista aumenta o custo?
Um caminhão parado continua gerando seguro, financiamento, depreciação, estacionamento e manutenção. Sem motorista, porém, ele não realiza viagens nem gera receita.
Para evitar que o profissional vá para outra transportadora, as empresas também precisam oferecer salários maiores, bonificações, melhores caminhões, benefícios, escalas mais curtas e rotas que permitam voltar para casa com mais frequência.
Quando esses gastos aumentam, a transportadora tenta colocá-los no preço cobrado do embarcador. O reajuste pode aparecer como aumento direto do frete ou como cobrança adicional para garantir um caminhão em determinada data.
O efeito tende a ser mais forte em períodos de safra, operações de longa distância e segmentos que exigem cursos específicos. No transporte de combustíveis, gases e produtos químicos, por exemplo, o motorista precisa de treinamento e habilitação compatíveis com o risco da carga.
A Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos informou que existem transportadoras desse segmento operando com até 50 motoristas a menos do que o necessário. A entidade afirmou que a escassez pode aumentar os custos, embora ainda não exista um percentual nacional fechado para esse impacto.
Frete já subiu, mas não apenas pela falta de caminhoneiros
O preço médio nacional do frete chegou a R$ 7,99 por quilômetro em março de 2026, alta de 3,36% diante de fevereiro e de 8,7% na comparação com março de 2025, segundo o Índice de Frete Rodoviário da Edenred.
Esse aumento foi relacionado principalmente ao diesel e à maior procura por caminhões durante o escoamento da safra. A falta de motoristas entra como uma pressão adicional sobre a capacidade de transporte, mas não pode ser apontada como responsável por toda a elevação.
Em julho de 2026, a ANTT também atualizou os coeficientes dos pisos mínimos do frete. A revisão considerou uma inflação acumulada de 3,54% entre dezembro de 2025 e maio de 2026, além de um preço de referência de R$ 6,97 para o diesel S10.
A tabela da ANTT considera custos como combustível, manutenção, pneus e desgaste do veículo. A falta de motorista não aparece como um reajuste nacional separado. Ela afeta principalmente a negociação entre transportadora e cliente, conforme a disponibilidade de profissionais e caminhões em cada rota.
Não existe um percentual único para o reajuste
Até agora, não há um estudo oficial que permita afirmar que a escassez de caminhoneiros aumentará todos os fretes em 5%, 10% ou qualquer outro percentual fixo.
O impacto depende de vários pontos:
- Distância e dificuldade da rota;
- Tipo de mercadoria transportada;
- Necessidade de cursos especializados;
- Quantidade de caminhões disponíveis;
- Época da safra;
- Salário e benefícios oferecidos;
- Tempo que o motorista permanece longe de casa.
Uma rota curta, com retorno diário, pode continuar atraindo candidatos. Já uma operação internacional, perigosa ou com várias semanas fora de casa pode exigir remuneração maior para preencher a vaga.
Alimentos e mercadorias podem ficar mais caros
O transporte rodoviário está presente em praticamente todas as etapas de distribuição. Quando o custo do frete sobe, parte dessa diferença pode ser repassada para alimentos, medicamentos, materiais de construção, peças, roupas e produtos vendidos pela internet.
O repasse não ocorre de forma automática e igual para todos. Algumas empresas absorvem parte do aumento, enquanto outras conseguem negociar contratos ou combinar diferentes meios de transporte.
Caso a quantidade de motoristas continue caindo e a demanda por cargas aumente, a disputa por profissionais deve ficar mais forte. Nesse cenário, o preço do frete não será pressionado apenas pelo diesel, pelo pedágio ou pela manutenção. A disponibilidade de quem assume o volante também passará a pesar cada vez mais na conta.
Comentários
0