Falta caminhoneiro ou falta oportunidade? Caminhões parados expõem problema no Brasil
O Brasil tem caminhão, tem carga e tem vaga aberta. O problema é encontrar quem assuma o volante. Pesquisa da NTC&Logística mostrou que 88% das empresas consultadas enfrentam dificuldade para contratar motoristas e agregados. Entre as transportadoras que disseram ter veículos ociosos, a média chegou a oito caminhões parados por empresa.
Só que existe outro lado dessa história. Motoristas que conseguiram chegar às categorias profissionais da CNH muitas vezes encontram uma porta fechada justamente por não terem experiência. A empresa procura alguém pronto, com estrada, prática em carreta e conhecimento da operação. Quem está começando precisa justamente de uma empresa para conseguir essa experiência.
Um projeto desenvolvido pelo Setcepar com a TIC Transportes, no Paraná, mostrou o tamanho dessa procura. Mais de 150 pessoas se inscreveram em uma seleção criada para motoristas com categoria E, mas ainda sem prática em veículos articulados. A própria reportagem sobre o programa aponta um velho problema do setor: poucas empresas querem assumir o custo e o risco de ensinar o profissional na prática.
É aí que a falta de caminhoneiros começa a ficar difícil de explicar apenas dizendo que “ninguém quer mais dirigir caminhão”. Existe gente tentando entrar. O que falta, em muitos casos, é uma porta de entrada onde o novato possa começar acompanhado, pegar rotas menores e ir ganhando experiência antes de receber uma carreta carregada para uma viagem longa.
A NTC também mostrou que 92,6% das empresas pesquisadas pretendiam investir em treinamento e capacitação em 2026. O número é alto, mas treinamento de funcionários que já estão dentro da empresa não significa necessariamente formação de novos caminhoneiros.
Em audiência na Câmara dos Deputados, uma representante do SEST SENAT afirmou que mais de 65% das empresas de transporte de cargas enfrentavam dificuldade para encontrar motoristas profissionais. Ela também citou o custo e o tempo para chegar às categorias profissionais como barreiras para quem deseja entrar na atividade.
Enquanto programas de formação começam a aparecer em algumas transportadoras, a situação ainda produz uma cena estranha nos pátios: caminhão pronto para rodar, vaga aberta e motorista recém-habilitado procurando alguém que lhe dê a primeira oportunidade.
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