Caminhão

Por que caminhão chinês ainda sofre para ganhar a confiança do caminhoneiro no Brasil

Preço mais baixo chama atenção, mas na estrada o motorista quer peça, oficina, revenda e segurança para não ficar parado longe de casa.

Caminhão barato não resolve tudo na estrada

Os caminhões chineses até chamam atenção no Brasil. Muitos chegam com preço competitivo, visual moderno e promessa de bom custo-benefício. Mas, para o caminhoneiro, a conta não fecha só no valor da entrada. Quem vive de frete sabe que caminhão parado é dinheiro indo embora.

O problema maior ainda está na confiança. Marcas tradicionais como Mercedes-Benz, Scania, Volvo, Volkswagen e Iveco já têm história na estrada, oficina conhecida, peça mais fácil e mecânico que entende do produto. Já os caminhões chineses ainda precisam provar que aguentam o peso do Brasil real: estrada ruim, carga pesada, calor, poeira, buraco, serra e viagem longa.

O medo de ficar parado pesa muito

Na rotina do transporte, não basta o caminhão ser bonito ou barato. O motorista precisa saber onde vai arrumar o veículo se quebrar no meio do caminho. Esse é um dos pontos que mais travam os caminhões chineses no país.

Algumas marcas estão tentando mudar isso. A Foton, por exemplo, informou que emplacou mais de 2 mil veículos no Brasil em 2025 e cresceu mais de 200% em relação a 2024, segundo dados citados pela própria empresa com base na Fenabrave. A marca também vem ampliando sua rede de concessionárias no país.

Mesmo assim, o caminhoneiro olha para o dia a dia. Ele quer saber se tem peça no interior, se a oficina resolve rápido, se o atendimento funciona e se o caminhão não vai ficar dias parado esperando componente. No transporte, cada dia parado pode virar prejuízo no frete, atraso na entrega e dor de cabeça com cliente.

Pós-venda ainda é o maior desafio

O pós-venda é onde muita marca nova perde força. Caminhão não é carro de passeio. Ele trabalha pesado, roda muito e precisa de manutenção constante. Por isso, rede de assistência, peças e mecânicos treinados são tão importantes quanto motor, câmbio e consumo.

Esse ponto é tão forte que até executivos de marcas tradicionais apontam que rede e pós-venda ainda protegem as montadoras já consolidadas no Brasil. A dúvida sobre valor de revenda dos caminhões chineses também entra na conta de quem compra para trabalhar.

Para o caminhoneiro autônomo, isso pesa ainda mais. Ele muitas vezes financia o caminhão por anos. Se depois quiser vender e o mercado não pagar bem, o prejuízo vem dobrado. Por isso, muita gente prefere pagar mais caro em uma marca conhecida do que arriscar em uma marca que ainda está criando nome.

O Brasil não perdoa caminhão fraco

Outro ponto é que o Brasil tem uma operação dura. Tem estrada esburacada, trecho sem estrutura, carga acima do ideal, longas distâncias e manutenção feita muitas vezes na correria. Um caminhão pode até ir bem em outro país, mas precisa mostrar serviço aqui.

Não dá para dizer que todos os caminhões chineses são ruins. Algumas marcas estão evoluindo, trazendo modelos a diesel, híbridos e elétricos, além de ampliar presença no mercado brasileiro. JAC, Foton, Sinotruk e outras fabricantes vêm mirando o setor de pesados e comerciais no Brasil.

Mas o caminhoneiro brasileiro não compra só promessa. Ele compra histórico. Quer ver outro motorista usando, quer saber se aguenta viagem, quer saber quanto custa uma embreagem, quanto tempo demora uma peça e se o caminhão vende bem depois de usado.

A desconfiança vem de experiências passadas

Muita gente ainda lembra de marcas chinesas que chegaram forte no Brasil, fizeram propaganda, prometeram fábrica, cresceram rápido e depois perderam presença. No caso da JAC, por exemplo, a operação brasileira já teve planos de fábrica que não saíram do papel e uma rede muito maior no passado, mas depois encolheu bastante.

Esse histórico deixa o transportador mais desconfiado. Caminhoneiro conversa em posto, oficina, grupo de WhatsApp e pátio de transportadora. Se a fama pega mal, demora para virar o jogo.

O preço ajuda, mas não decide sozinho

O caminhão chinês pode até crescer no Brasil, principalmente se entregar preço bom, garantia séria e rede forte. Mas para “ir para frente” de verdade, precisa vencer o medo do pós-venda.

Na estrada, o caminhoneiro não quer ser cobaia. Ele quer rodar, carregar, descarregar, receber o frete e voltar para casa sem susto. Enquanto as marcas chinesas não mostrarem presença forte em oficina, peça fácil e bom valor de revenda, muita gente vai continuar olhando com curiosidade, mas fechando negócio com as marcas que já conhece.

Ildemar Ribeiro

Um amante de veículos pesados devido grande influência do pai. Aos 7 anos de idade o seu maior sonho era ser motorista de transporte coletivo, no entanto, no ano de 2014 ingressou em uma empresa de transporte coletivo, como jovem aprendiz onde juntamente com seu amigo de trabalho fundou o Brasil do Trecho.

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