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No transporte rodoviário, quem tem contrato fixo, cliente grande e frota organizada costuma sair na frente. O caminhoneiro autônomo muitas vezes pega o frete mais apertado, com mais espera e menos margem.
No Brasil, o transporte rodoviário de cargas é enorme e depende muito do caminhoneiro. Só que, na hora de pegar os melhores fretes, a disputa não é igual. A transportadora grande costuma ter contrato direto com indústria, mercado, cooperativa, distribuidora e embarcador. Ela negocia volume, prazo, rota e pagamento com mais força.
Já o caminhoneiro autônomo muitas vezes entra depois, quando a carga precisa ser repassada, quando falta caminhão na frota ou quando o frete já passou por uma ou mais mãos. Aí o valor que chega para ele pode vir mais baixo, porque alguém já ficou com uma parte antes.
A ANTT mostra que o setor é dividido entre transportador autônomo de cargas, empresa de transporte rodoviário de cargas e cooperativa. No fim de 2023, o RNTRC tinha mais de 1,33 milhão de transportadores registrados, sendo quase 1 milhão de autônomos. Isso mostra o tamanho da categoria e também o tamanho da concorrência por frete.
A estrada, o frete bom geralmente já nasce com destino certo. Ele vai para quem tem cadastro aprovado, seguro, rastreador, prazo garantido, histórico com o cliente e capacidade de atender todo mês. É aí que a transportadora leva vantagem.
O autônomo pode ser bom de serviço, cuidar bem do caminhão e entregar no prazo. Mesmo assim, ele depende mais de aplicativo, agenciador, indicação, grupo de WhatsApp, posto, pátio e chamada de última hora. Quando a carga chega nesse caminho, muitas vezes ela já vem com valor espremido.
Hoje existem plataformas digitais tentando aproximar carga e motorista. A Fretebras, por exemplo, informa que conecta caminhoneiros com fretes de ida e volta e fala em milhares de cargas por dia na plataforma. Esse tipo de tecnologia ajuda, mas não muda sozinho a diferença de força entre quem tem contrato grande e quem trabalha viagem por viagem.
O caminhoneiro autônomo normalmente roda com o próprio caminhão ou com veículo financiado. Ele paga diesel, pneu, manutenção, óleo, pedágio, alimentação, seguro, documento e ainda precisa guardar dinheiro para uma quebra inesperada. Se o frete atrasa, se a carga demora para liberar ou se o pagamento cai depois de muitos dias, o aperto vem direto no bolso.
A transportadora também tem custo, claro. Mas ela consegue diluir melhor esse custo porque tem mais caminhões, mais negociação, mais crédito e mais volume. O autônomo sente tudo de uma vez. Se ele fica parado dois dias esperando carregar, são dois dias sem faturar e ainda gastando na estrada.
A própria ANTT mantém a política de pisos mínimos de frete justamente porque o custo do transporte muda com diesel, tipo de carga, distância e composição do veículo. Mesmo assim, na vida real, muito caminhoneiro ainda precisa negociar na pressão para não voltar vazio.
Quando dizem que o autônomo fica com as sobras, não quer dizer que todo frete seja ruim. O problema é que muitas cargas que chegam no fim da fila vêm com prazo apertado, rota ruim, espera grande ou valor baixo demais para o custo da viagem.
Às vezes o caminhoneiro aceita porque está longe de casa e precisa voltar rodando. Outras vezes aceita porque o caminhão não pode ficar parado. Só que frete ruim cria um ciclo pesado. O motorista roda muito, gasta muito, dorme mal, come na estrada e, quando fecha a conta, percebe que sobrou pouco.
A condição das rodovias também pesa no custo. Estudo da CNT aponta que estradas em situação ruim aumentam gasto com manutenção e consumo de combustível para quem transporta carga. Para o autônomo, esse impacto é ainda mais sentido, porque qualquer peça quebrada pode parar o caminhão e travar o dinheiro da semana.
Outro ponto que quase ninguém vê é a espera. O caminhoneiro chega para carregar e fica horas parado. Depois roda centenas ou milhares de quilômetros e pode ficar mais horas esperando descarregar. Esse tempo nem sempre entra na conta do frete.
Para a transportadora, esse atraso pode virar número de operação. Para o autônomo, vira banho pago, marmita, diária perdida, cansaço e menos chance de pegar outra carga. A rotina fica pesada porque o motorista trabalha, mas nem todo tempo de trabalho aparece no pagamento.
Com isso, muitos caminhoneiros dizem que a estrada não está pagando como antes. O frete existe, o volume de carga existe, mas o dinheiro bom nem sempre chega na mão de quem está puxando a carreta.
O transporte rodoviário brasileiro não funciona sem caminhoneiro autônomo. Ele está na safra, no mercado, no combustível, na construção, na indústria e no abastecimento das cidades. Mesmo assim, quando a negociação fica concentrada em quem tem mais força, o motorista independente acaba aceitando o que aparece.
O ideal seria o autônomo ter mais acesso direto ao embarcador, pagamento mais rápido, menos intermediário, mais respeito ao piso mínimo e cobrança real pelo tempo parado. Porque no fim, quem roda na chuva, enfrenta serra, buraco, fiscalização, fila e noite mal dormida é o caminhoneiro que está na boleia tentando fazer o frete valer a pena.
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