Humilhação ao volante ajuda a explicar por que faltam motoristas de ônibus

A profissão de motorista de ônibus está perdendo espaço entre os mais jovens por um motivo que vai além do salário. A rotina reúne pressão por horário, trânsito pesado, veículos lotados, cobrança de passageiros e conflitos que quase sempre acabam direcionados a quem está ao volante.
O condutor recebe reclamações por atrasos que não controla, mudanças de itinerário, falhas no cartão, superlotação e redução da frota. Xingamentos, ameaças e exposição em vídeos publicados nas redes sociais transformam um problema do sistema em humilhação pessoal. Dentro da empresa, a cobrança por produtividade e cumprimento de viagens pode aumentar ainda mais o desgaste.
Um estudo publicado pela Revista de Psicologia da Universidade Federal do Ceará, feito com 161 condutores de Natal, relacionou o assédio moral no trabalho ao sofrimento psíquico e aos transtornos mentais comuns. A pesquisa considera fatores como cobranças de superiores, violência urbana, contato com passageiros e condições do trânsito.
Os números recentes mostram que esse desgaste não fica apenas nos relatos. Na Região Metropolitana do Recife, o sindicato da categoria informou que 197 motoristas foram afastados por problemas psicológicos nos quatro primeiros meses de 2026. O total já representava cerca de 40% dos 486 afastamentos registrados durante todo o ano de 2025.
No Rio de Janeiro, a procura de rodoviários e familiares por atendimento psicológico passou de 25 para 60 consultas semanais em 2025, crescimento de 140%, conforme dados divulgados pelo sindicato local. A violência, as ameaças e o medo de ter o ônibus usado em ações criminosas aparecem entre os fatores que levam profissionais a buscar ajuda.
Esse ambiente ajuda a explicar por que as vagas ficam abertas. Uma pesquisa da Confederação Nacional do Transporte mostrou que quase metade das empresas de ônibus intermunicipais possuía postos disponíveis. Para 66,2% dos empresários consultados, a falta de profissionais era a principal carência do setor.
Parte dos habilitados prefere atividades com menor contato direto com o público, horários mais previsíveis ou condições consideradas menos desgastantes. Salário compatível, escala equilibrada, apoio psicológico, segurança e proteção contra agressões passaram a ter peso na decisão de permanecer na profissão.
A renovação da mão de obra também perdeu força. Dados do Ministério dos Transportes indicaram queda de 30,88% nas emissões de habilitações das categorias D e E em uma década, sinalizando que uma geração de profissionais está envelhecendo sem reposição suficiente para ocupar os postos disponíveis.
Comentários
0