
Foto: Barbara Lopes/ Agência O Globo
Salário apertado, dupla função, violência, pressão por horário e falta de valorização estão afastando profissionais do transporte coletivo.
A profissão de motorista de ônibus já foi vista como emprego seguro, de carteira assinada e respeito na rua. Mas a realidade mudou bastante. Hoje, muitos profissionais enfrentam trânsito pesado, cobrança por horário, passageiro nervoso, risco de assalto e, em vários lugares, ainda precisam dirigir e lidar com a passagem ao mesmo tempo.
Segundo dados do Portal Salário com base no Caged, o motorista de ônibus urbano ganha em média R$ 2.909,61 por mês, com jornada média de 43 horas semanais. No caso do motorista de ônibus rodoviário, a média nacional aparece em R$ 2.844,32, também com 43 horas semanais. Esses valores mudam por cidade, empresa, acordo coletivo e tipo de linha, mas mostram que o salário nem sempre acompanha o peso da responsabilidade de levar dezenas de pessoas todos os dias.
Com a saída dos cobradores em muitas cidades, parte dos motoristas passou a acumular mais tarefas dentro do ônibus. Além de conduzir o veículo, o profissional precisa orientar passageiro, controlar embarque e desembarque, prestar atenção no trânsito, cumprir horário e, em alguns casos, receber pagamento ou conferir passagem. A própria descrição da ocupação aponta atividades como receber pagamento, prestar contas de valores, orientar passageiros e garantir segurança no embarque e desembarque.
O motorista fica sozinho para lidar com o trânsito, com o passageiro que entra sem pagar, com a catraca, com o troco, com a fiscalização e ainda com a pressão para não atrasar a linha. O TST já teve entendimento de que motorista de ônibus pode acumular a função de cobrador em algumas situações, mas isso não apaga o desgaste real de quem passa o dia inteiro no volante.
O setor já sente a falta de profissionais. Levantamento citado pelo Diário do Transporte aponta que a escassez de motoristas de ônibus urbanos e metropolitanos atinge 53,4% das viações. As empresas começaram a investir em formação interna porque está mais difícil achar gente pronta para assumir o volante.
Os números mostram um cenário misturado. No ônibus urbano, houve saldo negativo de 2.146 vagas no período de abril de 2025 a março de 2026, com mais desligamentos do que admissões. Já no ônibus rodoviário, o saldo foi positivo, com 2.515 vagas, mas a rotatividade segue alta. Isso mostra que a profissão não sumiu, mas está ficando mais difícil manter o motorista na função.
Além do salário e da dupla função, a segurança pesa muito. Em Niterói, uma reportagem de O Globo mostrou que 80% dos pedidos de demissão levantados pelo sindicato estavam ligados à violência urbana e ao forte estresse. Muitos motoristas passaram a procurar outros caminhos, como aplicativo, fretamento ou outras áreas do transporte.
Essa realidade não é muito diferente da vida de quem roda de caminhão. A estrada cobra caro. Tem pressão por entrega, risco de assalto, espera, manutenção, cansaço e pouca valorização. No ônibus, a diferença é que o motorista ainda carrega passageiros o tempo todo, ouvindo reclamação, lidando com atrasos e sendo responsabilizado por problemas que muitas vezes não dependem dele.
O ônibus continua sendo essencial para milhões de brasileiros que dependem do transporte público para trabalhar, estudar e voltar para casa. Só que o profissional que segura essa rotina está cada vez mais cansado. A falta de respeito, o medo, o salário limitado e o acúmulo de tarefas fazem muitos motoristas pensarem duas vezes antes de continuar na profissão.
Para quem vive do transporte, seja no ônibus, caminhoneiro ou na van, a conta é parecida. O volante sustenta muita família, mas também cobra saúde, paciência e tempo de vida. Quando o motorista começa a sair da profissão, o problema não fica só dentro da garagem. Ele chega no ponto de ônibus, no terminal, na estrada e no bolso de todo mundo que depende do transporte funcionando.
Esta publicação foi modificada pela última vez em 17 de maio de 2026 07:09
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