Agro endividado pode mexer no bolso de todo brasileiro

A crise financeira que atinge parte do agronegócio brasileiro pode sair das fazendas e chegar ao bolso de quem mora nas cidades. O aperto envolve produtores endividados, empresas com dificuldade para pagar fornecedores e um número cada vez maior de pedidos de recuperação judicial.
Somente em 2025, o agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial, alta de 56,4% na comparação com 2024. Foi o maior número desde o início da série da Serasa Experian, em 2021. O levantamento inclui produtores rurais pessoa física, produtores com CNPJ e empresas ligadas ao setor.
Quando uma fazenda perde capacidade de pagamento, o problema não fica parado na porteira. O produtor reduz a compra de máquinas, adia manutenção, corta investimentos e negocia insumos. Com menos dinheiro circulando, lojas, oficinas, transportadoras, armazéns, cooperativas e prestadores de serviços também sentem o baque.
O tamanho dessa corrente ajuda a entender o risco. Em 2025, o agro respondeu por 48,5% de tudo o que o Brasil exportou. Foram US$ 169,2 bilhões em vendas ao exterior, puxadas principalmente pela soja, carnes, café, açúcar, celulose e outros produtos.
Uma perda de força nas exportações pode diminuir a entrada de dólares no país. Isso pesa na balança comercial e pode aumentar a pressão sobre o câmbio. Dólar mais caro costuma encarecer combustível, fertilizantes, defensivos, máquinas e vários produtos importados.
O crédito é outro ponto delicado. O Banco Central informou que o endividamento dos beneficiários do crédito rural chegou a R$ 746,9 bilhões em maio de 2025. Esse valor não representa apenas contas atrasadas, mas mostra o tamanho da dependência do setor em relação a empréstimos e financiamentos.
Com mais pedidos de recuperação judicial, bancos e fornecedores podem apertar as regras para liberar dinheiro. O produtor que ainda paga tudo em dia também pode encontrar juros maiores, prazos menores e exigência de mais garantias.
O preço dos alimentos não sobe automaticamente porque existem fazendas endividadas. O efeito pode aparecer mais à frente, caso produtores reduzam a área plantada, usem menos tecnologia ou deixem de investir na próxima safra. Menos oferta de milho, arroz, feijão, leite ou carne pode pressionar os preços nos supermercados.
A crise também ocorre em um momento de produção elevada. A safra de 2025 foi estimada pelo IBGE em 345,9 milhões de toneladas, recorde da série histórica.
Produzir muito, porém, não garante dinheiro sobrando. Se o preço recebido cai enquanto juros, arrendamento, combustível e insumos continuam caros, o produtor pode colher uma safra grande e ainda terminar o ano sem caixa para pagar as parcelas.
Comentários
0