Europa disputa caminhoneiros e pode atrair brasileiros com salário, benefícios e melhores condiçõe

O mercado europeu de transporte está entrando em uma disputa cada vez mais forte por motoristas profissionais, e essa corrida pode começar a chamar a atenção de caminhoneiros brasileiros interessados em trabalhar no exterior.
Em 2025, aproximadamente 502 mil postos de motorista de caminhão ficaram sem preenchimento na União Europeia, mais que o dobro do registrado dois anos antes, segundo dados citados pelo Financial Times.
O problema não parece passageiro. A IRU, organização mundial do transporte rodoviário, aponta que cerca de 20% dos caminhoneiros europeus devem chegar à aposentadoria nos próximos cinco anos. A entidade projeta aproximadamente 660 mil aposentadorias até 2030.
Para as transportadoras, isso significa uma conta complicada: já faltam profissionais hoje e centenas de milhares dos motoristas que continuam nas estradas estão próximos de deixar a profissão.
É justamente esse cenário que pode transformar países europeus em concorrentes pelo motorista brasileiro.
Não existe evidência de que a Europa vá literalmente “levar boa parte” dos caminhoneiros do Brasil, mas há condições para aumentar bastante o interesse pela mudança, principalmente entre profissionais experientes, com categoria E, atuação internacional e disposição para aprender outro idioma.
A pressão já está chegando aos salários. Na Polônia, por exemplo, a transportadora Extrego aumentou a remuneração de seus motoristas em cerca de 15% em 2025 e, mesmo assim, ainda enfrentava dificuldade para preencher posições em 2026.
Levantamentos anteriores da IRU também mostraram empresas europeias oferecendo bônus, aumentando salários, investindo em caminhões melhores e pagando custos de qualificação para tentar atrair e manter profissionais.
Ou seja, a disputa deixou de ser apenas por alguém habilitado para dirigir. As empresas começam a perceber que precisam oferecer remuneração, caminhão, escala e condições de trabalho capazes de convencer o motorista a permanecer na profissão.
Isso pode pesar na decisão de brasileiros que já enfrentam longos períodos longe de casa, fretes pressionados ou salários considerados baixos diante da responsabilidade de conduzir uma combinação pesada.
Mas comparar apenas euros com reais seria enganoso.
Um salário europeu convertido diretamente para o real parece enorme, porém o motorista que morar na Europa também terá aluguel, alimentação, impostos e demais despesas em euros. A vantagem real depende do país, contrato, quantidade de viagens, benefícios oferecidos e custo de vida.
Existe, porém, outro movimento que torna a situação mais interessante: a Europa está discutindo abertamente como contratar mais motoristas de fora do bloco.
Em fevereiro de 2026, a Comissão Europeia publicou um estudo conduzido pela IRU dedicado justamente ao recrutamento e à integração de caminhoneiros e motoristas de ônibus de países terceiros. O documento analisa barreiras de habilitação, qualificação e imigração e maneiras de facilitar a entrada desses trabalhadores.
A Alemanha já possui regras específicas para a contratação de motoristas profissionais estrangeiros. Empresas alemãs podem contratar profissionais vindos de fora da União Europeia com aprovação da Agência Federal de Emprego e, em determinadas situações, ajudar o trabalhador a obter a habilitação e a qualificação necessárias dentro do país.
Isso não quer dizer que um brasileiro possa simplesmente pegar a CNH E, comprar uma passagem aérea e começar a dirigir uma carreta na Alemanha.
Existem exigências de visto, autorização de trabalho, conversão ou reconhecimento da habilitação, qualificação profissional e, dependendo da empresa, conhecimento do idioma. Na Alemanha, por exemplo, há regras específicas para converter a carteira estrangeira e obter as qualificações necessárias para atuar profissionalmente.
Mesmo com essas barreiras, a direção do mercado ficou mais clara.
Há alguns anos, contratar motoristas de fora da União Europeia era visto principalmente como alternativa de determinadas empresas. Agora a própria Comissão Europeia estuda formas de tornar esse recrutamento mais funcional diante de uma falta estrutural de profissionais.
E o problema europeu não termina nas 502 mil posições que ficaram sem preenchimento em 2025.
Apenas 5% dos caminhoneiros europeus têm menos de 25 anos, enquanto uma parcela muito maior se aproxima da aposentadoria. A dificuldade para renovar a categoria é um dos motivos pelos quais a IRU considera a escassez estrutural, e não apenas resultado de um período de crescimento das cargas.
Para o Brasil, isso cria uma questão interessante.
Se empresas europeias ampliarem a contratação internacional e começarem a oferecer processos de imigração mais simples, salários competitivos, caminhões novos, escalas mais previsíveis e benefícios, motoristas brasileiros experientes podem entrar no radar dessas transportadoras.
E eles já possuem algo que a Europa está procurando desesperadamente: experiência atrás do volante.
A Europa ainda não abriu uma porteira automática para caminhoneiros brasileiros. Mas com 502 mil posições sem profissionais, empresas aumentando salários e governos discutindo contratação estrangeira, a estrada para trabalhar no continente está ficando mais visível.
Se as condições oferecidas forem suficientemente atrativas, a pergunta no futuro talvez deixe de ser se existem caminhoneiros brasileiros interessados em trabalhar na Europa e passe a ser quantos estarão dispostos a fazer as malas.
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