Caminhoneiro

Fim da escala 6×1 pode mudar a vida dos caminhoneiros, mas a estrada ainda tem um problema maior

A proposta pode dar mais folga para motoristas com carteira assinada, mas a rotina de carga, descarga e viagem longa ainda pesa muito.

O fim da escala 6×1 ainda está em discussão no Congresso e não foi aprovado de forma definitiva. Hoje, a regra geral ainda permite jornada de até 44 horas semanais, enquanto as propostas em debate tentam reduzir essa carga e aumentar os dias de descanso. O governo enviou um projeto para reduzir a jornada para 40 horas semanais, garantir dois dias de repouso remunerado e impedir redução de salário. Já algumas PECs falam em reduzir a jornada para 36 horas semanais.

Para o caminhoneiro, esse assunto precisa ser olhado com cuidado. Não é igual a um trabalho comum, em que a pessoa bate ponto, sai da empresa e vai para casa todo dia. O motorista vive na estrada, dorme fora, espera para carregar, fica preso em pátio, perde hora em descarga e muitas vezes passa a folga longe da família.

O impacto maior seria para caminhoneiro com carteira assinada

Na prática, a mudança teria impacto mais direto para o caminhoneiro contratado em regime CLT. O Pé na Estrada tratou o assunto justamente nesse ponto, explicando que a redução de jornada pode trazer benefício para motoristas com carteira assinada, principalmente por causa do convívio familiar, descanso e saúde.

Para esse motorista, o fim da escala 6×1 poderia significar mais tempo de folga na semana, menos sequência de dias trabalhando e uma rotina um pouco menos pesada. Só que no transporte rodoviário isso não acontece de forma simples. A empresa teria que reorganizar rotas, contratar mais gente ou dividir melhor as viagens para não deixar caminhão parado.

Na estrada, folga nem sempre significa estar em casa

O problema é que o caminhoneiro de longa distância não vive uma escala comum. Ele pode até ter direito a mais descanso, mas esse descanso pode cair no meio da viagem, longe de casa, em posto, pátio ou beira de estrada. É aí que a promessa de qualidade de vida esbarra na realidade.

A advogada ouvida pelo Pé na Estrada também apontou isso: para motoristas de longa distância, pode haver dificuldade porque a folga pode continuar acontecendo longe da família. Mesmo assim, com melhor organização e possível contratação de mais profissionais, a mudança pode abrir caminho para uma rotina menos sacrificada.

A Lei do Motorista continua valendo

Mesmo que a escala 6×1 acabe, o caminhoneiro ainda vai ter que cumprir as regras da Lei do Motorista. A PRF informa que o motorista profissional precisa ter 11 horas de descanso ininterruptas dentro de 24 horas. Para transporte de carga, também precisa fazer pausa de 30 minutos a cada 6 horas ao volante, e não pode passar de 5 horas e meia seguidas dirigindo sem descanso.

Ou seja, o fim da escala 6×1 não acaba com a regra do tacógrafo, não libera dirigir sem parar e não muda sozinho o problema das paradas. O caminhoneiro ainda precisa descansar, mas continua enfrentando a falta de ponto seguro, banheiro limpo, pátio decente e lugar tranquilo para dormir.

Pode melhorar, mas também pode encarecer a operação

Para o motorista empregado, a mudança pode ser boa se vier com organização de verdade. Menos dias seguidos no trecho pode reduzir cansaço, estresse e risco de acidente. Também pode dar mais tempo para a família, para cuidar da saúde e para não viver só em função do caminhão.

Mas para a transportadora, a conta pode ficar mais apertada. Se o caminhão precisa rodar todos os dias, a empresa pode ter que contratar mais motoristas, rever escala, dividir viagem e planejar melhor carga e descarga. Se isso não for bem feito, o risco é jogar mais pressão em cima do próprio caminhoneiro, com prazo apertado e cobrança maior.

O ponto principal é a rotina real do caminhoneiro

A discussão sobre o fim da escala 6×1 é importante, mas a estrada tem problemas que vão além da folga no papel. O caminhoneiro perde tempo esperando nota, aguardando doca, dormindo em fila, segurando carga, procurando vaga em posto e tentando cumprir prazo que nem sempre respeita a realidade do trecho.

Se a mudança sair do papel, ela pode ajudar principalmente quem trabalha registrado e hoje vive com pouca folga. Mas, para funcionar de verdade no transporte, precisa vir junto com planejamento, mais motoristas, pontos de descanso seguros e respeito ao tempo de quem carrega o Brasil nas costas.

Ildemar Ribeiro

Um amante de veículos pesados devido grande influência do pai. Aos 7 anos de idade o seu maior sonho era ser motorista de transporte coletivo, no entanto, no ano de 2014 ingressou em uma empresa de transporte coletivo, como jovem aprendiz onde juntamente com seu amigo de trabalho fundou o Brasil do Trecho.

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